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O Império Invisível - As Duas Torres [Cap.1] Enviar por e-mail
Livros - Trechos de Livros
Escrito por: Schroeder
Schroeder

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Seg, 11 de Janeiro de 2010 08:14

Capítulo 1

 

Nova Iorque.

Quase um ano depois...

 

O JOVEM GARÇOM, A SERVIÇO DO sofisticado restaurante, aproximou-se trajando uma calça social preta e um dalma branquíssimo de gola alta. O moço aprumou-se, ao lado da mesa, deixando a coluna ereta e os braços em L, adiante e atrás do próprio corpo.

— Em que posso servi-lo? — perguntou ao cliente já acomodado.

Ao fundo, contornando a silhueta do distinto cavalheiro, a cidade de Nova Iorque podia ser vista do ponto mais alto, através das amplas e verticalmente longas janelas do luxuoso estabelecimento, na ensolarada manhã de terça-feira; a pouco mais de duas semanas da queda das primeiras folhas do outono.

Reinaldo, assentado à mesa, olhou para seu rolex com inocultável tensão. 8h26min.

— Obrigado. — Ele respondeu ao garçom. — No momento não preciso de nada...

— Nem mesmo água?

A boca seca de Reinaldo o impelia a aceitar a oferta, mas ele sabia que as boas práticas, no hostil mundo do serviço secreto, recomendavam um cuidado redobrado em encontros como aquele.

Nunca coma ou beba nada em território inimigo. Lembrou-se das palavras de seu instrutor na academia.

O garçom lhe dirigiu um olhar de cobrança. Ele queria uma resposta...

— Nem mesmo água! — respondeu ao garçom, ainda parado diante dele, com uma veemência que beirou a indelicadeza. O homem uniformizado retirou-se apressado.

Enquanto aguardava seu convidado, Reinaldo fez uma checagem mental dos planos; que lhe custou pouco mais de um minuto de concentração.

— Tudo ok! — Disse para si mesmo, respirando fundo.

O celular tocou.

A música, que marcou o primeiro encontro do casal, ressoou baixo pelos pequenos alto-falantes do aparelho. A campainha personalizada denunciava ser sua esposa quem lhe remetia a chamada. No visor do aparelho a fotografia de Érica ratificava a informação.

Os olhos inseguros de Reinaldo fitavam a imagem no celular, que ainda tocava.

Ele apreciava observar aquele rostinho angelical.

Aquele momento, no entanto, não permitia nostalgia. Reinaldo atendeu secamente:

— Oi Érica, o que houve?

— Dê uma olhada em seu bolso!

Reinaldo tateou os bolsos de sua calça, de sua camisa, até bater a mão sobre um pequeno volume no bolso interno de seu blazer preto. O tatear resultou em um característico tilintar de metais.

— Não é possível! — Lamentou-se. — As chaves do carro! — exclamou ele, comprimindo o rosto.

— Preciso delas. Não tenho como sair daqui! — silêncio do outro lado da linha. — Estou subindo para apanhá-las, querido...

— Não! — interrompeu Reinaldo com ímpeto incontido. — digo... Não precisa amor. Espere-me onde você está que vou lhe entregar.

— Está tudo bem? — perguntou a esposa estranhando o comportamento do marido, sem conhecer os verdadeiros motivos daquela importante reunião.

— Sim. Diga-me onde você está!

— Já estou no septuagésimo terceiro. Estou em frente ao elevador. Posso subir aí, prometo que será rápido.

— Septuagésimo terceiro... O lobby intermediário? — referiu-se à espécie de terminal de embarque e desembarque de elevadores, onde os elevadores expressos, ou seja, os que não paravam de andar em andar, se integravam aos elevadores comuns.

— Sim.

— Não precisa! — respondeu Reinaldo, olhando para o relógio, enquanto caminhava em direção ao elevador. 8h32min. Seu contato já estava atrasado, e percebendo, no entanto, que não estaria presente para reivindicar sua pontualidade característica, ele encontrou uma alternativa rápida.

— Pensando bem, suba até o octogésimo sétimo. — Quase a metade do caminho para ambos. — Nos encontramos lá!

Além de ganhar tempo precioso, esta manobra reduziria o risco de sua esposa ser vista em sua companhia. Em se tratando de um encontro delicado como aquele, o ideal era que ela já estivesse bem longe dali.

 

•••

 

Érica guardou o celular em sua bolsa preta de couro, suspensa em seu ombro esquerdo, enquanto encontrava espaço em meio à pequena multidão no interior do elevador local — parador.

— Octogésimo sétimo andar! — solicitou de forma entusiástica, a jovem senhora de 25 anos, em um inglês com sotaque brasileiro; antecipando-se ao questionamento certo do operador de elevador uniformizado.

Pela primeira vez, no último ano, sentia-se feliz... Talvez Contente... Na verdade estava apenas animada. Por si só, isso já era uma vitória. Um oásis em meio às noites mal dormidas dos meses recentes.

Seu esposo estava certo: Aquela viagem lhe traria refrigério.

Já havia até sorrido naquele dia.

Durante a subida observava o ingresso e egresso das pessoas no elevador. Em sua mente, acidentalmente, veio uma lembrança do passado. Uma época em que “lia pensamentos”. Ou pelo menos fantasiava ser capaz disto.

Uma infância feliz e criativa.

Isso, Érica, cultive bons pensamentos. Lembrou-se das palavras de seu terapeuta. Pense em coisas boas.

Com o objetivo de preencher as infindáveis horas de silêncio fúnebre em que era obrigada a permanecer, ao acompanhar sua mãe no ofício de bibliotecária, Érica havia inventado uma atividade capaz de transformar horas enfadonhas em momentos extremamente divertidos.

Os únicos ingredientes eram algumas pessoas e muita imaginação. Considerando as figuras exóticas que percorriam os corredores daquela biblioteca, as possibilidades eram inúmeras. Além disso, a brincadeira de dublagem mental vinha a calhar devido à necessidade de absoluto silêncio. Exceto quando os risos tornavam-se incontroláveis.

Será que ainda lembro? Pensou Érica, enquanto um casal clássico de sorridentes turistas japoneses, com máquinas fotográficas de última geração penduradas ao pescoço, tentava entrar com dificuldade no elevador, obstruído por um senhor obeso. — O senhor poderia abrir a cancela? — Divertiu-se Érica dublando os personagens reais em pensamento, com forte sotaque japonês e voz caricata. O obeso americano encolheu a barriga para a entrada dos turistas. — O pedágio pode ser pago com um Big Mac.  —, imaginou uma boa resposta dada pelo gordo que se daria com voz quase afônica, uma vez que sua cancela, ou melhor, sua barriga estava recuada.

Através de um dos espelhos do elevador Érica observou ao fundo, indiferente aos demais, uma senhora, de traje chique e chapéu imponente. Seu rosto estava bastante esticado, por algo que ela não sabia identificar se fora resultado de sucessivas cirurgias plásticas ou botox. — Ambos! — Seria a sincera resposta da mulher, com voz impostada, segundo a versão mental da brasileira.

Érica não conseguiu conter-se. Deixou escapar uma curta seqüência de risos que, no silêncio do elevador, chamou a atenção dos vizinhos. Isto já acontecera antes, na biblioteca que empregava sua mãe.

Ela desviou o olhar, no momento em que seus olhos e os da esticada senhora se cruzaram. Disfarçou, ajeitando seus cabelos, o que justificaria estar olhando para o espelho e sorrindo. Por um instante ela agradeceu a Deus pela pele jovem, macia e rosada que recobria o seu rosto, e fez um voto de: aconteça o que acontecer, botox não!

Érica observou um jovem negro, carregando dois pesados malotes de correspondências para circulação interna do prédio.

O elevador estava cheio. Sua mente foi tomada por todos aqueles personagens falando ao mesmo tempo. O murmúrio de uma pequena multidão.

Através dos espelhos ela deu uma olhada geral na grande diversidade de pessoas que, apesar de suas histórias, situações econômicas e sociais completamente distintas, naquele momento ocupavam o mesmo e pequeno cubículo de aço.

Em instantes elas continuarão suas vidas exatamente de onde pararam antes de aqui entrarem.

Mal sabia ela que aquelas palavras não seriam verdadeiras para todos.

Quando Érica recobrou a consciência, depois de sua viagem mental, percebeu o homem uniformizado gesticulando em sua direção, dizendo alguma coisa que ela demorou alguns instantes para compreender.

— Octogésimo séptimo piso, señora. — repetiu pacientemente o funcionário, desta vez em espanhol, supondo que ela não tivesse compreendido a afirmação em inglês, realizada nas três tentativas anteriores.

Érica sorriu para seu interlocutor, agradecendo-o:

— Muchas gracias.

Imaginou os pensamentos do homem: Estes turistas!

Ela atravessou a porta de metal rindo de si mesma.

 

•••

 

— Pssiu! — Érica ouviu uma cantada familiar, seguida do soar de um molho de chaves sacudido.

A mulher virou-se, encontrando Reinaldo em pé, com um dos ombros apoiado na parede, pernas cruzadas, formando o número quatro, e com as chaves levantadas em direção à esposa.

— Aqui estão as chaves do carro! Desculpe não poder ficar mais... Estou muito atrasado! — Disse olhando para seu relógio de pulso que registrava avançadas 8h44min.

Quando Érica preparava-se para dizer algo, Reinaldo a interrompeu, colocando o dedo indicador nos lábios da esposa. Ele inclinou levemente a cabeça, com os olhos dançando de um lado para o outro, observando o teto, como se tentasse ouvir algo. Semblante preocupado.

Antes de Érica questionar o estranho comportamento do marido, ela própria conseguiu perceber um som estranho, parecido com o de um míssil, que se aproximava rapidamente.

Quando o som tornou-se quase insuportável, Reinaldo empurrou Érica para o chão, jogando seu corpo robusto sobre o dela a fim de protegê-la. Subitamente uma grande explosão, misturada ao ranger de metais, fez-se ouvir assustadoramente próxima nos andares superiores. O piso, sob eles, moveu-se violentamente. As luzes apagaram-se. Segundos depois a iluminação de emergência foi acionada automaticamente.

O corredor, que segundos antes estava praticamente deserto, tornou-se intransitável. Centenas de pessoas acotovelavam-se, procurando acesso por uma das escadarias. Outros choravam pelos corredores. Um dos elevadores — o mesmo que trouxera Érica ao seu destino — descia, vindo dos andares superiores. Ela tentou posicionar-se diante da porta de metal, forçando passagem em meio à multidão, quando seu esposo a puxou pelo braço para o lado, meneando a cabeça em desaprovação.

Ele a arrastou para as escadas. Gritos desesperados e assustadores tornaram-se crescentes, como se viessem em uma locomotiva infernal. Quando a porta do elevador abriu-se, chamas escaparam por entre elas, em direção ao corredor, e cinco pessoas em meio ao fogo, com forte cheiro de etanol, debatiam-se violentamente, tentando sair.

A multidão, que se aglutinava no corredor, bloqueou a passagem, protegendo-se do fogo. Apenas um chapéu feminino em chamas, visto por Érica na cabeça de sua proprietária, minutos antes, conseguiu escapar pelas portas metálicas antes de se fecharem pela última vez. A caixa de metal continuou a descer os andares abaixo, fazendo os gritos perderem-se no fosso.

Um calafrio percorreu a espinha de Érica.

Em estado de choque, deixou-se conduzir por seu esposo, escada abaixo. Abrindo caminho em meio às pessoas. Reinaldo, que fora treinado para situações como aquela, segurava firme a mão gélida de sua esposa. A descida era lenta, em virtude dos calçados pouco próprios de Érica para aquele tipo de aventura. Os lances de escadas pareciam infindáveis!

Os andares tornavam-se mais congestionados, à medida que o casal descia.

Eles passaram por uma senhora de meia idade, que chorava copiosamente, sem mover-se do lugar. Reinado aproximou-se rapidamente dela, puxando-a por um dos braços. Tentou encaminhá-la para as escadarias. Ela recusou-se, soluçando. Reinando insistiu, mas ela clamou de forma comovente, apontando para o interior de uma sala em chamas:

— Minha filhinha de quatro anos esta lá dentro!

Reinaldo parou. Virou-se para sua esposa com olhos úmidos. Érica encarou o esposo. Aqueles poucos segundos, em que se entreolharam, pareceram horas.

À cabeça de Érica vieram flashs... Memórias de um passado que a assombrava... Um pequeno caixão, portando o corpo franzino de um bebê, cujo rostinho infantil era beijado por ela em prantos. Nesta lembrança, Reinaldo, também em lágrimas, a consolava.

Naquele corredor, Érica sabia exatamente o que passava pela cabeça de seu marido. Quisera ela que sua leitura mental fosse tão divertida quanto as realizadas minutos antes no elevador. Como desejava ser tão fantasiosa quanto as até ali praticadas. Mas desta vez, talvez pela primeira e única vez, ela sabia exatamente quais eram os pensamentos de alguém. Sabia o que se passava pela mente de seu esposo.

Érica balançou a cabeça, assentindo, enquanto dirigia o olhar marejado para cima, equilibrando uma lágrima. A lágrima não escorreu. Segundos mais tarde ela era reabsorvida por seus olhos. Enquanto isto, Reinaldo atravessava o paredão de chamas, que se formou à porta da sala. A fumaça tóxica tornava impossível a permanência no andar. O piso tornou a tremer. Através das chamas, Érica observou seu esposo, com a criança, aparentemente inconsciente, no colo. Um sopro de esperança ativou seu coração. Com um lenço no rosto, tentando filtrar o ar, ela observou o esposo imóvel, cercado por um cenário avermelhado.

— Venha, Reinaldo! Venha! — gritou tossindo.

Ela não entendia o porquê da hesitação do esposo em sair. Olhando, porém, com maior cuidado, através da cortina de fogo, ela observou um profundo buraco, aberto no recente desabamento, que separava seu esposo da porta.

— Desça dois andares para baixo. — gritou Reinaldo, enquanto retirava as cortinas, ainda intactas de uma das janelas. — o chão cedeu! Houve um pequeno desmoronamento. Vamos descer por este buraco!

Usando a cortina como corda, Reinaldo amarrou-a ao redor da cintura da garotinha. Suspendeu o corpo inconsciente da menina, lentamente, temendo uma ruptura do frágil material. De fato rompeu-se, mas para alívio do herói, quando isto aconteceu, o corpo da jovenzinha estava a menos de vinte centímetros do chão, dois andares abaixo. A queda não lhe causou traumatismo algum.

Impossibilitado de sair, tossindo muito, Reinaldo aceitou sua sorte, mas não antes de decidir-se cumprir sua última e emergencial missão. Por anos havia treinado sua mente para ser capaz de criar complexas estratégias abstratas, sem o auxílio de anotações ou esquemas lógicos. Apenas sua mente!

O método de treinamento baseou-se na prática do jogo de xadrez sem peças no tabuleiro. Xadrez às cegas! Ele guardava as posições das peças e as movia mentalmente. O que para a maioria era algo impossível, Reinaldo fazia com maestria. Ficara conhecido na agência, ao derrotar dois de seus colegas e empatar com um terceiro, simultaneamente, jogando xadrez com os olhos vendados. Aquela última missão, no entanto, seria ainda mais complexa, considerando as condições adversas.

Ciente disso, ele retirou de seus bolsos dois aparelhos celulares. Com um aparelho em cada mão, digitou números distintos, em cada um deles. Simultaneamente pressionou call. Fez as chamadas.

 

•••

 

Dois andares abaixo, Érica, na companhia da mãe da criança, aproximou-se da porta da sala, conforme a orientação do esposo. A porta estava trancada. Ela apanhou um extintor de incêndio, e violentamente o bateu contra o trinco da porta.

Apesar de destruir a fechadura, não conseguiu abri-la. Parecia haver algo emperrando a porta pelo lado de dentro. Um homem desceu correndo as escadas. Assim que o avistou, Érica pediu ajuda, mas preocupado demais em salvar a própria pele ele sequer parou para dar-lhe ouvidos.

Ela então iniciou uma série de golpes, com o extintor, na parte superior da porta. Desta forma conseguiu quebrar a madeira, abrindo uma pequena fenda, suficiente para espiar o lado de dentro da sala, e perceber estar cheia de entulhos, resultantes do desabamento dos andares superiores.

Érica conseguiu aumentar o buraco na porta, com a ajuda da mãe da criança. Aproveitando-se de sua boa forma física, corpo magro, decidiu atravessar a estreita fenda aberta no alto da porta. A mãe da criança a ajudou, suspendendo-a nas costas. Por um momento Érica ficou presa à porta, pelos quadris. Forçando a madeira deteriorada, ela conseguiu aumentar, com as próprias mãos, o vão. Nesta rápida operação feriu um de seus braços, sem gravidade. Ela finalmente conseguiu atravessar o orifício, alcançando o interior da sala.

Lá dentro, Érica encontrou a garotinha deitada sobre os escombros, com a corda improvisada de cortinas sendo consumida pelo fogo ao lado de seu pequeno corpo. Procurou por seu esposo quando, olhando para cima, observou uma grande coluna de concreto, equilibrada por alguns faiscantes fios da rede elétrica.

Ela levantou a garotinha no colo, carregando-a até a porta. Apesar de inconsciente, Érica pôde perceber que a criança ainda respirava. Assim que passou a criança pelo orifício, entregando-a nas mãos de sua mãe, ocorreu um novo desmoronamento. A mulher, com sua filha nos braços, desceu rapidamente as escadarias em busca de socorro. A porta da sala não suportou o peso do novo soterramento, e arrebentou-se. Érica foi arrastada pelos escombros, que arrancaram a porta na qual Érica recostava-se. No incidente ela feriu a cabeça. Apesar do corte sobre o supercílio direito, e um salto de seu calçado quebrado, Érica novamente ferira-se com pouca gravidade.

Tossindo muito e mancando, correu escadaria abaixo. No caminho encontrou corajosos bombeiros, bem equipados com roupas antichamas, máscaras e cilindros de ar, subindo as escadarias. Finalmente, minutos mais tarde, Érica alcançou o andar térreo. A brisa fresca que soprava da porta de entrada lhe trouxe um alívio imediato.

Ela caminhou com dificuldade pelo grande saguão que, diferentemente de minutos antes — quando a decoração impecável era permeada pelo caminhar elegante dos transeuntes —, foi tomada pela correria em meio ao pó e à desordem.

Sem perceber a coluna de sangue a escorrer pelo lado do seu rosto, Érica recusou atendimento médico, e saiu do prédio caminhando com o olhar fixo no nada. As pessoas pareciam correr ao seu lado, para todas as direções, em câmera lenta. Os sons das sirenes e dos gritos tornavam-se quase inaudíveis, ecoando em sua cabeça. Ela atravessou a avenida em segundos que pareciam uma eternidade.

O estado de choque de Érica foi quebrado por seu instinto de sobrevivência, quando uma segunda explosão, às 9h03min, desta vez mais violenta que a primeira, fez-se ouvir no alto do prédio. Ela elevou as mãos à cabeça, enquanto observava, sem acreditar, uma gigantesca bola de fogo, formando-se na outra torre... A Torre Sul do World Trade Center. Alguém a arrastou ao longo da Liberty Street. Sob uma passarela, que transpunha a rua de um lado a outro, o anjo desconhecido a abrigou das portas vítreas para dentro de um estabelecimento comercial, enquanto uma forte chuva de destroços caia próximo ao local, por onde, minutos antes, Érica transitava.

Encostada no balcão de atendimento do abrigo improvisado, juntamente com outros que se refugiaram no estabelecimento, sem perceber o tempo passar, com o olhar perdido no infinito, Érica tornou a sentir o chão tremer sob seus pés. Uma grande nuvem de poeira e fumaça avançou do outro lado da rua, em sua direção, até parar nas portas de vidro do prédio que a abrigava.

Deste dia em diante a liberdade nunca mais seria a mesma na América, a Liberty Street — Rua da Liberdade — seria interrompida para sempre! Érica, estarrecida, assistia ao desabamento da segunda torre, minutos mais tarde.

É um sonho! Pensou ela. Um pesadelo!

Infelizmente Érica acordou para a dura realidade. Na parede, a folha do calendário que se perdia em meio ao grosso pó, registrava: 11 de setembro de 2001.



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Última atualização em Seg, 11 de Janeiro de 2010 09:35
 
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