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Literatura - Contos - Romance
Escrito por: Cilas_Medi
Cilas_Medi

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Qui, 18 de Fevereiro de 2010 09:21

Cidade pequena, no interior, e todas as coisas que acontecem é para o gáudio de seus moradores. A velha estação de trem, que maravilha, agora vai ser transformada em algo que ainda não sabem. Mas acompanham. Chegou uma companhia inteira, contaram direitinho quantos são e da capital. Afinal a dona Lourdes, dona da única pousada, hotel, pensão e todas as denominações possíveis, para trinta e cinco pessoas, bem, a única e estava lotada. Até a sua residência, coitada, foi utilizada e ela foi para a casa do irmão, logo adiante, na praça. Todos sabem de todos e essa foi mais uma novidade. E a turma, pelo visto, tem um prazo curto para entregar, seja o que for. Não dá para ver nada, eles fecharam tudo com tapume e lá dentro a bateria de marretas estava funcionando. Dentro, porque fora não pode mexer nem um milímetro. Afinal é o patrimônio principal da cidade, mais a igreja matriz e central, praça central e a prefeitura municipal. As casas restantes, algumas até da mesma época, já estavam fora de serem consideradas assim, de patrimônio. A modernidade chegou e os prefeitos anteriores não ligaram muito, até pelo espaço que as construtoras, pequenas, da cidade, estavam precisando para colocar, no papel, na aprovação, na prefeitura, estado e até na união, que aqueles espaços de mais de trezentos anos já deram o que tinham que dar. Chega gente, vamos derrubar e construir prédios. Não vingou, a turma foi embora e pronto, nada que somente um pouco de gado, plantação e o clima quase parado de uma cidade que não tem nenhum motivo para crescer. Se o crescimento for a custo de destruir a sua singular adaptação ao século atual, por favor, não mexam. Estamos bem assim. Que diga o prefeito, também, do lado de fora, nesse décimo dia de reforma.

- Senhor prefeito, citando com enorme respeito.

- Como vai engenheiro Simões. Cumprimentaram-se, fortemente. Quando vou saber dos finalmente, perguntou quase eufórico. Estamos em época de eleição, mais cinco meses e estarei pronto para conseguir, novamente, o sufrágio universal desse povo. O engenheiro riu.

- Bem, estamos terminando, senhor prefeito. Dez dias, trinta e cinco pessoas e vamos entregar em mais cinco, como prometido. Está tudo em ordem aqui dentro.

- Não posso entrar para acompanhar a obra? O que estão inventando agora?

Citou assim um pouco cismado. Afinal, desde a aprovação do projeto, nada de se obter autorização para entrar, acompanhar melhor, verificar detalhes. Mais do que já tinha lido no projeto mais que certo aprovado não só por ele e pelos seus companheiros de partido como, um verdadeiro milagre em época própria, até a oposição concordou. Em gênero, números e grau. Sim, números. O que se pretendia fazer era de agrado de todos. Empregos, muitos mais cidadãos que viriam morar no município, maior verba para a prefeitura. Do estado, a estrada vicinal, finalmente, asfaltada e até uma singular e retorno de fundamental linha de trem para dois outros municípios, formando uma trinca do barulho para a capacidade maior de receber turistas. Com certeza, um aumento nos números de toda a região. E ele capitaneando, faz questão de citar todos os dias, forçando o jornal, dois deles, um maior e o outro bem pequeno, da oposição, dizendo que ele foi o responsável por toda essa movimentação. Dos números, todos eles bem estampados até na primeira página, nos três primeiros dias e agora, sempre, para sempre e como sempre, ele tirando fotos na frente da obra, apertando a mão do engenheiro chefe – que se diverte muito com essa situação – com o encarregado da obra, até de algum inusitado e distraído pedreiro ou ajudante sendo homenageado com o aperto de mão do celerado, porque não sossega.

- Não, não pode senhor prefeito, vai estragar a surpresa. E o povo não vai lhe apoiar se souber antes, não foi mesmo o que pediu? Veja o telhado já foi todo tirado e estão finalizando as traves. Dá para ver daqui. Vamos fazer a laje, pequena e ajustada, evitando ter que reforçar as laterais e precisar quebrar mais. Não se preocupe, ficará ótima a reforma.

- E as crianças, perguntou chamando a atenção para o virar e revirar dele, olhos e cabeça, procurando saber quem estava no local, situação ou oposição e lhes dar a boa vinda. - Prefeito chamou novamente.

- Sim engenheiro sim está vendo. E vai ficar ótima. Fez o gesto se poderia entrar novamente e a recusa. Desistiu.

- Até amanhã, Simões.

- Até amanhã, prefeito.

Ele saiu com o seu secretário de obras, que, por incrível que pareça, também sabe menos até do que está acontecendo dentro da estação ferroviária. Antiga, agora um misto dela, para o turismo e qualquer outra coisa, para a fábrica. A fábrica. Segredo de estado foi o que disseram. O cliente fez questão absoluta. Mas nada de produtos químicos, farmacêuticos ou qualquer outro que pudesse ir contra a bucólica expressão da localidade. E as crianças, até agora, pelo visto, são as que mais sabem dessa situação. Ele não entendeu bem o porquê estão fazendo com elas e a iniciativa deles junto às duas escolas municipais. Uma, particular, arrenda para si todos os filhos de bens vividos e mais ainda, bem nascidos da região. Cerca de quinhentos alunos. Os deles, bem, só lhe davam trabalho. A verba para as refeições diárias e o apoio a sociedade carente lhe tirava a oportunidade de os poucos valores que conseguia arrecadar. Nada de muito valor e assim a vida se esvai. Agora, bem, agora, com a saída para o estado, a estrada vicinal e mais...

- Prefeito estou falando com o senhor, acordando de suas reminiscências;

- Poxa, Júlio, estava fazendo contas.

- Não chega o que já conversamos? Estão certas. Um aumento de duzentos por cento na nossa arrecadação. Estamos eleitos, com certeza absoluta.

- Não foram os números que vi. Esqueceu que o Zimbinha conseguiu colocar o nome dele no projeto? E aquele jornaleco conseguiu provar que era certo mesmo. Ele foi o co-autor do projeto. Vocês deram muita moleza. Era para esconder de vez e permitiram a oposição me deixar nessa situação.

- Prefeito, o Zimbinha é conhecido. É seu opositor, mas quanto que tem de eleitores? Mil? Dois mil?

- Veja o que está falando, besteiras totais. Quantos eleitores têm na nossa cidade?

- Bem, na última contagem, vinte e dois mil e uns quebrados.

- Faça a conta. Qual o número percentual. Multiplique por três e terá os eleitores dele. Não acha que é preocupante. Nunca se sabe.

Fez, olhando para o secretário, andando até o carro, parando, olhando fixamente para o engenheiro e se dizendo contrariado pelo fato de não poder entrar no local. O engenheiro lhe deu as costas. Precisa, como todos, do emprego e primeiro, sua prioridade é atender ao patrão e antes dele mesmo, o cliente. Se forem trazer os números positivos para o local, ele manda. Assim se faz.

*o*

A professora Lucinha está mais do que entusiasmada. Há dez dias, uma professora da capital lhe procurou. Ficou eufórica. Agora, mesmo não sendo da direção da pequena escola, vai presidir a comissão que fará com que as crianças façam os seus desenhos e suas redações sobre a estação ferroviária. Qual o conteúdo e o porquê de toda essa agitação? Prêmios. Números positivos para a sua candidatura à professora do ano. Todas ficam assim, eufóricas e ela não deixou de pontuar positivo nessa condição de coordenadora. Professora Lucinha, sim, um baluarte para fazer aquelas crianças compreenderem o que vinha de tudo aquilo à frente delas.

- Crianças, chega, por favor. Podem parar. Vamos e vocês dois sentem-se.

- Professora olha ele, empurrando um dos dois moleques ainda de pé.

- Estou vendo. E vocês do fundo, fiquem quietos. Hoje – querem parar vocês dois, por favor – vamos iniciar mais um processo de desenho da ferrovia, do local, como vocês acham que vai ficar e o que será que vem para lá. Estão entendendo? Vão adivinhar escrever e me entregar. Quem acertar vai ganhar um brinquedo.

- Eu sei uma delas, a Francisquinha, magrinha, cara sempre feliz, contente na maioria das brincadeiras e toda serelepe.

Dez aninhos, último ano. As amigas, de outras classes também, tudo junto para participar. Em grupo. Cinco em cada. E lá vêm mais desenhos que depois serão analisados por uma equipe entre elas, as professoras. Vários grupos já haviam sido eliminados e as crianças, em consolada contrição e desconsolada aparição, recebiam, para os meninos, carrinhos e bolas de futebol e as meninas, bonecas, bijuterias e algum artigo de maquiagem simples para as mais velhas. Velhas, dez a doze anos, muito velhas mesmo. Bem, para a idade apropriada. Agora, nesse instante, vinte grupos ainda em disputa. Na classe, apertados, mais de cem crianças. Pode-se imaginar o transtorno e a qualidade do ar, apesar de todas as janelas abertas e dois outros ventiladores, da direita para a esquerda e de cima para baixo, tentando deixar o oxigênio respirável. Escola pequena, orçamento mínimo, crianças barulhentas e muito espertas e vivas, sim, bem vivas, querendo que aquilo tudo funcione. Bem, sempre é possível. Um último grito, não, repreensão e parece que acalmou.

- Crianças, por favor, vão escutar a Francisquinha, cale a boca um instante.

- Professora, obrigada, falou puxando o vestidinho para baixo, como se precisasse. Mais tentando tirar as rugas, largo que estava nela. Da irmã mais velha, sim, com certeza. Todos têm, todos conhecem todos na pequena comunidade. Ainda mais de crianças. - Professora falou novamente, eu acho que vai ser uma fábrica de brinquedos.

- Uma fábrica de brinquedos? Que interessante! E como sabe, o que a leva a ter essa certeza?

- Bem, professora, eu acho que é. Pelo modo que estão fazendo a gente fazer desenhos. Eles vão criar brinquedos com os nossos desenhos.

Todos se admiraram da perspicácia da menina. Mas como crianças, de seis até quatorze anos podem fazer brinquedos? Ou desenhos deles?

- E como chegou a essa conclusão?

- Bem, eu fiz dois brinquedos e fui aprovada, não fui. E os meus amigos também não foram, perguntou apontando a quatro outros, dois garotos menores, nove anos e mais a sua principal amiga, a amiga principal de seus dias, do seu lado, branquinha como ela, serelepe igual.

E a outra, mais recatada, óculos grandes que fazem o roteiro de baixa até a ponta do nariz e ela insistentemente, mais do que ele, levar de volta para o devido lugar. Sorrindo levemente, parecendo que se diverte com essa atividade.

- Muito bem, crianças, calma, é só uma opinião. Vamos fazer os desenhos. Calma agora, olhando o ventilador colocado de lado.

O que deveria fazer o contorno de direita e esquerda estava fazendo de cima para baixo e ela se pôs exatamente no local que, na volta conseguia dos dois. E o seu encanto, quase uma criança também, era acompanhado pelas duas outras, sorrindo. E as crianças, com os seus lápis de cor se entranharam na atividade. E lá se vai mais uma ponta de uma cor azul, um deles se encarrega de apontar. Tem a que estabelecem as prioridades do desenho, outro diz a melhor cor, outro arredonda com o lápis preto e seu contorno e finalmente o que diz, não faz nada, deve ser coordenador, futuro político ou o que seja que diz o estar tudo nos conformes. Ela acompanhando, com as mãos para trás e vendo todo o movimento.

*o*

A gargalhada deu por fim o sinal que eles estavam atentos a piada de um deles, que chegou a bater na mesa grande, ovalada, cujo presidente estava na ponta, o que mais ria e trazia para si todo o volume do despautério de alegria. E a secretária, duas outras assistentes acompanhavam um pouco constrangidas, era o que parecia, melhor, o certo.

- Desculpem moças, foi sem querer. Você é mesmo terrível, Marcelo.

- Desculpem moças, foi sem querer, repetiu exatamente quase que um eco perfeito do patrão.

Se já não gostam dele, mais ainda essa capacidade que tem de ser inconseqüente com as brincadeiras e, diga-se de passagem, e até de ficar no mesmo lugar observando, um grandessíssimo puxa saco. Horroroso até na maneira indecente com que se porta. Mas o patrão o adora, o que se pode fazer. Ele aproveita. E a sua carreira foi meteórica dentro da empresa, deixando a muitos que ali trabalham, agora, sob a sua tutela de diretor superintendente. Jovem, trinta e seis anos, muito jovem. Bem, más línguas, por favor, me acudam, pensou ela, ele é filho de político influente. Bem, não tanto assim foi a sua única condição. É competente, inteligente, esperto e um excelente profissional. Mas todos têm uma falha de caráter e a dele, essa. Piadas escatológicas e sem graça para a maioria e excelentes para a verve um pouco debochada do patrão. Uma colocação bem ajustada. Ele é feliz, alguns dos seus colaboradores também, então, nem tudo está perdido.

- Mais alguma coisa, senhor?

- Não, Viviane, mais nada, ainda tentando segurar o restante do riso. E você duas também. Agora, só os rapazes. Obrigado, meninas.

Elas se levantaram cada uma de um departamento, auxiliares diretas dele, o próprio. Marcelo, diretor superintendente.

- Obrigado, meninas, ele citou também.

Os dois outros gerentes sorriram novamente. Podem não gostar, mas aprendem bem com o seu mestrado em administração, curso no exterior, três idiomas fluentes. Inglês, Frances e Alemão. Cobrindo praticamente todas as possibilidades de parceiros estrangeiros.

- Marcelo, você ainda me mata seu palhaço.

- Doutor Horácio, por favor, foi uma pequena. Não foi, reafirmou, olhando para os dois à sua frente.

- Sim, foi doutor Horácio, essa foi a menor dele, confirmou um deles diretamente.

- Mais uma depois do final do relatório, fique esperto, intimou.

- Sim, senhor. Joel, por favor.

O rapaz, engenheiro civil, fez a abertura da planta e o investimento que seria no total de dois milhões e duzentos mil reais, bancados diretos por eles com todas as especificações e exigências. Ele viu outros detalhamentos e finalmente, depois de uma hora mais de reunião e análise, deram por fim o encontro. A Viviane entrou ao pedido pelo interfone e ouviu o fim da gargalhada.

- Sim, senhor.

- Terminamos querida, por favor, vou sair em dez minutos.

- Vou providenciar doutor Horácio. Ela já sabe de todo o roteiro. Ele é assim, direto e objetivo. As reuniões, quando internas, menores sempre de duas horas. E os gerentes já saem com a programação acertada. Eficiente. E aprende muito com ele também. Voltou-se, fechou a porta da sala e, pelo interfone, avisou ao pessoal dele, um motorista e um segurança da sua presença e o tempo que irá levar até chegar.

- Tudo bem, senhorita, estamos de prontidão.

- Ótima obrigada. E se fechou na sua mesa, aguardando novas ordens. Ele saiu e um leve aceno, logo depois, antecipando em dois minutos, ela viu no relógio. Avisou de imediato. Ele não gosta de falta de atenção e, ainda mais, com o que pede, mandando. É cortêz com a responsabilidade, um pouco bruto com a falta dela. E de horário.

*o*

- Eu ainda acho...

- Não acha não, não quero que ache nada.

- Está bem, prefeito.

- Está bem, prefeito. Não tem opinião, só acha. Se quiser achar, ache de uma vez. Tente entrar no local para ver.

- E como vou fazer isso, prefeito. Sou diretor de obras da prefeitura...

- Secretário.

- ... e ... sim, secretário, não importa, tudo bem, aceito, pronto. Não sei escalar tapume e não vou ser flagrado fazendo isso. Será uma vergonha total. Porque não liga para o tal do doutor Horácio e pergunta. Ainda pode ser o tempo certo para parar com tudo.

- Parar com tudo, está brincando. O homem vai enterrar dois milhões e duzentos mil reais na obra. Vendo bem, é muita dinheirama para aquele espaço. Dá para desconfiar, tem toda a razão.

- Eu também acho, melhor, tenho certeza, quando viu o olhar feio para cima dele. Tenho certeza, reafirmou. Vou fazer mais pesquisas, mas agora que já começou não tem como, simplesmente, cancelar. E a obra está adiantada. Viu hoje?

- Vi hoje, repetiu. E você me interrompeu novamente.

- O que eu não fiz ou fiz agora, prefeito.

- Está me incomodando, afirmou.

Sentando-se na cadeira, século passado e na mesa, toda revestida e costurada, estilo rococó, poder-se-ia dizer, acompanhando todo o aspecto do século retrasado do prédio. Uma bela construção, enorme, antiga fazenda e agora, centro das atenções daquela população. E o seu tataraneto, do construtor, um grande provedor da creche, da prefeitura como o seu principal pagador de imposto territorial e urbano. Uma grande mansão, dois quilômetros da cidade e proprietário da única escola particular. Bem, um grande e beneplácito ser humano. Todos o admiram e ele só conseguiu se eleger através do apoio dele. E agora, com essa construção, gente de fora e que diz para ele, pés juntos, que não conhece, não sabe e não pretende se intrometer. Apesar de que poderia ter sido ele o autor, mas chega de fazer, somente ele, pela prefeitura. Foi o que ouviu na última reunião. Já tem problemas demais para resolver, cuidar do patrimônio, da sua enorme fazenda, criação de gados, e, porque não, sua viagem anual para a Europa, com toda a família. Ele, o pai, os pais e os sogros, a mulher e a filharada. Três. Para ele, casado e sem filhos, uma filharada. E está satisfeito. Tem bastantes irmãos, sobrinhos, sobrinhas e mais alguns agregados, aquela molecada que o inferniza em fins de semana, na esquina, na praça, no bar, metido a boate, do seu rival. O Zimbinha. Eu o pego qualquer dia, se o encontrar vendendo bebidas alcoólicas para menor e até, não sei não, algum tráfico de entorpecentes. Exageros políticos à parte.

- Estou no meu escritório, anunciou um pouco zangado.

- O que foi agora, magoou?

- O senhor me trata mal todos os dias por causa dessa situação. Está cismado, eu sei e não consegue descobrir. Tem alguma coisa a mais nesses números, todos sabem e não me deixa fazer o que gostaria.

- O que foi agora, com enfado. Parece uma mulher ciumenta, afirmou, tentando sorrir e o outro fechando a cara de vez.

- Pode brincar, mas eu sou o seu principal adversário nessa hora. Para ajudar e não prejudicar, eu sei. E quero saber também os detalhes dessa obra. Da obra, não do projeto. Nunca vi algo assim tão perfeito. Dá para desconfiar. Ele está colocando ouro lá dentro, ou tirando.

- Como é que é tirando ouro?

- Pois pode ser, o que acha, rindo e vendo a atitude dele.

- Que saco, vá encher o outro se não tem o que fazer. Tirando ouro, afirmou, com cara de desconfiança. Ourina, ou urina, pode ser. Aqueles malandros que ficavam por lá devem ter deixado bastante resíduos de urina. Se ela se transforma em ouro, vou mijar em canecas e guardar, falou rindo.

- Bem, somos amigos, vou trabalhar.

- Em que?

- Puto.

- Viado! Vou falar para a sua irmã, seu besta, está me maltratando.

- Devia ter colocado filhos nela, seu palhaço. Viado.

- Vou te dar uma porrada, levantando-se e saindo de trás da cadeira e correndo pelo salão, enorme, seis metros por dez e quase o alcançando na porta, que abriu rapidamente e saiu. A secretária, a dona Ofélia viu os dois.

- Olha a brincadeira, são autoridades. Depois reclamam, falou séria.

Ele, o secretário de obras deu adeus e saiu pela outra porta.

- Tem razão, não sei o que me deu na cabeça de trazer parentes para trabalhar aqui.

- Ele não é seu parente, é cunhado.

- E cunhado não é parente, por acaso?

- Não, é cruz que se carrega, começando a rir.

Ele olhou para ela, cinqüenta e seis anos, trinta e dois de prefeitura, várias e várias moções atendidas para os seus colegas e de muita influência. Uma prefeita poder-se-ia dizer. Conhece muito mais que a todos que por ali passaram nesses anos que depois de dez, na prefeitura, conseguiu o cargo e de lá ninguém a tira. Até por comodidade.

- É verdade, uma cruz. Ele sabe disso?

- Já falei, riu e não ligou.

- Então foi certo mesmo. A senhora não tem jeito.

- Tenho sim, emagreci dois quilos. Estou com sessenta e dois agora. Pode ver.

- Não, por favor, não quero ver nada.

Ela riu. Faz sempre a mesma brincadeira e até hoje nenhum deles reclamou. Solteirona, bem, já teve o seu caso principal. Agora, prefeitura e chega de problemas com homens. São todos uns crianções. Não mereço. Bom orçamento doméstico, mora com uma irmã, professora aposentada. Vinte e cinco anos de tortura foi o seu lamento. As crianças e os pais. Não sabem quem são os piores. Ainda mais sendo do colégio particular. Uns monstrinhos, conforme a educação trazida de casa.

*o*

A comissão foi presenteada com a visita da dona Virgínia Alvarenga de Menezes, subsecretária da educação e uma das que vieram acompanhar os desenhos e de toda aquela confusão, entrando na classe quando o último grupo finalizou os trabalhos. Ela foi cumprimentada por todas as outras, para ajudar e avaliar, dando por encerrado as informações preliminares para a qual foi solicitada na secretaria estadual.

- Como vão, professoras, tudo bem. Vamos trabalhar. Preciso voltar à capital ainda hoje. Gostaria de ficar mais, não encontrei acomodações.

- Se quiser me dar a honra, pode ficar na minha casa, por favor.

- Não, não quero dar trabalho. Até o final da tarde vamos terminar tenho certeza. Vamos a ela, vendo as últimas crianças, mais ainda interessadas na presença dela, adivinhando que dali sairia a vencedora do concurso.

Do grupo vencedor. Água, refrigerante e café foram trazidos, simples na apresentação, mas de coração, como lhe disseram. E parece ser uma pessoa bastante ativa. Os trabalhos foram sendo separados, com ela mais preocupada com as redações do que propriamente com os desenhos. E destacou, particularmente, duas delas. E leu novamente.

Eu acho, não, nós achamos, eu o Felipe, o André, a Joaninha ela é minha prima e a Vilminha ela é minha amiga, eles também, o Felipe e o André, e nós gostaríamos de saber o que vai ser feito lá na ferrovia. Mas a nossa opinião é que vai ser um lugar para as crianças, como nós, que não temos com o que brincar. Só no parquinho, mas ele está todo estragado, tem ferrugem nos brinquedos e algumas crianças, amigas da minha melhor amiga que se machucaram. Os meus amigos também, já cortaram o joelho e a perna no escorregador. Eu gostaria de saber que o que nós conversamos seja a verdade. O meu pai e a minha mãe dizem que a gente deve sempre conversar e dizer a verdade. Então a nossa verdade é que, bem, todos nós queremos assim. Um parque de diversão e a locomotiva pode ser a nossa máquina para passear. A gente também quer que seja dada a oportunidade de poder tocar, puxar e escutar a buzina dela. Ela riu com a buzina. Continuou. Eu gostaria também, que a nossa professora Lucinha fosse omenageada, - riu novamente -, porque é a melhor professora do mundo. Do mundo mesmo, do grande, não só do nosso. Eu, Pati, o Felipe, o André a Joaninha e a Vilminha assinamos para os professores saber que nós queremos isso que eu escrevi. Um beijo no homem e na firma que está trazendo essa alegria para nós. Beijos.. E a assinatura deles todos, viu, adorou e sorriu novamente.

- Tudo bem com a senhora? Essa redação vai ficar em separado?

- Sim, essa vai ficar assim. Podem ler. Quem é a Lucinha? Essa garotada adora você, pelo menos esses cinco.

Todas sorriram. Parece ser uma unanimidade, ela percebeu.

- Obrigada, vou ler. E pegou para fazer o que disse, largando os desenhos.

Ela pegou a segunda. Todo mundo está dizendo e nós não acreditamos que lá na ferrovia vai ser uma espécie de lugar para todo mundo ir. Assim, um museu ou um lugar para a criançada, como nós, se divertir. Eu acho que não e convenci todos da minha turminha que não é isso não. Eu acho que é uma fábrica de brinquedos. Nós fizemos três, dois já foram aprovados. Ela riu e levantou a cabeça. Interessante essa proposta. Crianças só não dizem cada uma, são perspicazes nas suas necessidades. Retornou. Então, se a professora Lucinha for a dona do lugar, ou for a professora que vai tomar conta do lugar, ela sabe que eu já falei isso hoje, antes da gente começar a fazer os desenhos. Eu mostrei a minha idéia para os meus amigos e eles disseram que concordavam. Gostariam que lá fosse uma fábrica de brinquedos e que fossem de madeira, para ficar bastante tempo lá e depois poder servir para os nossos filhos e nossos netos. Agora exagerou, tirando uma insistente lágrima que sentiu querer escorrer. Essas crianças! Ele vai ficar assombrado, com certeza. Nunca poderia imaginar que fariam dessa maneira. Bem, voltemos, com a folha de caderno na mão e as professoras imaginando o que poderia estar se passando em sua mente. Abaixou a cabeça. E depois, se estragar, fica na fábrica para consertar. Eu acho que na cidade tem gente que pode aprender bastante e assim ficar como chefe de produção. Eu e os meus amigos vamos assinar para poder dizer que todos nós queremos uma fábrica de brinquedos na ferroviária. E que seja bem colorida. Eu vou adorar. A Julinha também, o Zezé também, a Pepe também, o Dudu também e eu também. Todos nós também. E assinamos. Ela viu a assinatura, primeira, Francisca e todas as outras, com os nomes certos do Zezé e o Dudu embaixo José Eduardo, a Pepe, embaixo Penélope e a Julinha, Julia dos Santos. Bem, completa a forma e o modelo que gostariam. Uma fábrica de brinquedos.

- A senhora gostou?

- Bem, está eleita, professora.

- Mais do meu nome?

- Sim, a professora preferida.

Todas aplaudiram e várias delas emocionadas. Pelo visto é mesmo unânime. Alguma possível vereadora no futuro. Olhou firme para ela, brejeira, morena clara, cabelos entre um misto de negro e enrolado. Longos, faceira também, um sorriso bonito, belos dentes. Sim, uma professora bonita. E eu não sou de se jogar fora, como ele diz.

- Eu acho que vou ficar sem graça.

- Não acredito nisso, querida Lucinha. Bem, senhoras, duas redações. Podem ler e me dizer o que acham. E os desenhos?

- Temos de brinquedos, temos pais e mães, casas, cachorros, o lago da cidade, da prefeitura, da ferrovia e tudo o mais que gostam. Não entenderam que seria somente de lá, do prédio da ferroviária. Mas deram o seu recado.

- Com certeza, crianças fazem o que gostam, mesmo com a nossa orientação. E fiquei muito feliz. Vou levar de volta essas duas redações que considero as melhores, veja que horas. Não almoçamos, mas vamos jantar.

- Sim, na minha casa, se prontificou uma.

- Na minha, falou outra.

- Na pensão da Lourdes, é melhor, confirmou a Lucinha. Vou ligar e marcar. Todas nós. A conta é da prefeitura.

- Não, de jeito nenhum. Tenho verba de representação. O doutor Horácio vai me ressarcir tenho toda a certeza. Somos em, contando, doze pessoas. Sem problemas desde que ela não seja careira, brincou.

- Nada disso, tem a mão maravilhosa, fique certa.

Estava rindo, todo o material sendo recolhido e colocado nas pastas. Mais de cem folhas de papel. Muito mais. Vários grupos quiseram entregar os desenhos, cada um por si. Nada de grupo. O argumento que o meu desenho é muito mais bonito que o seu, foi o que acompanharam. E a resposta que todos vãos serem analisados, tudo bem crianças. E a volta do meu é mais bonito que o seu, vou ganhar e assim terminaram. Em clima de festa e muito colorido.

*o*

Os dias se passaram e chegaram, finalmente, o penúltimo e a inauguração para amanhã. Sim amanhã, com a festa programada, tudo pago para o regional e os seus instrumentos luzidios e mais do que arrumados, aparelhados e encontrados entre os seus formadores de sons. Sim, tudo certo. A dona Ofélia acompanhou todos os trâmites, e sabe, nessa hora, ela manda e todos obedecem. Até o prefeito. Está muito exultante e preocupado com a retirada dos tapumes. De dois metros de altura, cercado e controlado por seguranças. Muito mistério para pouca coisa. Ou muita coisa escondida em mistério. Ou misterioso modo de se fazer com que pessoas tenham interesse maior...

- Prefeito, de novo.

- Porra, como você é chato. É mesmo uma cruz.

- Vou brigar com a dona Ofélia, não é para ficar espalhando, mas rindo. E está muito excitado. Para fazer filho, nada.

- Quer levar uma porrada na frente do pessoal?

- Não.

- Então, calado. Simões, meu amigo, quando deixou o automóvel, abrindo a porta e saindo do refrigerado. Que calor da porra, falou baixo. Amigão, quase gritou. Podemos ver o término da obra?

- Sim, hoje excepcionalmente para as autoridades.

- Então você fica, afirmou e brincando de novo com ele.

- Sou diretor de obras...

- Secretário.

- Quer saber, vou entrar, quero ver me impedir.

E entraram realmente, quase como crianças. O cercado foi feito cinco metros de cada lado da ferroviária, frente e fundo e dez para os dois lados do prédio recém consertado, arrumado, lixado, pintado e dado como certo. Agora, o pessoal complementando com as árvores, dois coqueiros e um jardim maravilhoso. O caminhão entrou com eles todos e fechado novamente. Os olheiros profissionais, melhor dizendo talvez, os que não fazem nada durante o dia, entrando pela noite também. Aposentados em bom número, mais a criançada fora da escola. Parque infantil ou o que? Ferroviária, lugar de museu, biblioteca - não queremos não, chega de estudar – ou outra coisa que não vamos gostar. E eles dois, parados, estupefatos.

- Isso, Simões, isso com dois milhões e duzentos mil reais. Não acredito! Tem problemas e vou resolver com o governador. Aqui tem tramóia meu amigo.

- Prefeito o que está dizendo?

- O que acabou de ouvir. Isso, entrando pelo salão. Viu a máquina, a velha Maria Fumaça renovada. Parou de falar. Desculpe, fizeram a reforma nela também?

- Sim, com certeza. Quinze dias, foi uma verdadeira briga. Vejam, as peças de outras duas compuseram e completaram. Tudo original. Ela tem trezentos anos, exagerou. Eles riram.

- Trezentos anos, Maria Fumaça com trezentos anos?! Não existia na época.

- Existia sim, senhor, falou o cunhado.

E tome discussão, existia não existia e o coitado do Simões observando. E rindo, o que se pode fazer. São autoridades.

- Calma, gente, por favor, toda a história está catalogada, na outra sala. Vamos entrar. Eles pararam, riram e se cutucaram.

- Precisa ter mais respeito, sou o prefeito. Desculpe engenheiro, vamos lá.

Não existia, falou novamente e o Simões escutou de volta existia sim. Quando abriu a enorme porta para deixá-los passar, toda em seu esplendor de quatro metros de altura, mais o um metro acima, em arco, ele ficou emocionado. E parou dessa vez sem ação. O cunhado foi à frente dele, e fitou para cima, para os lados, para frente, e agora, de volta olhando para ele. Estava quase chorando, essa era a realidade. Mas disfarçaram bem. Dois funcionários ainda davam o toque final nas vidraças, limpando e uma moça fazia o mesmo nos vidros. Eles se aproximaram agora refeitos. E ela mostrava com carinho as peças também recuperadas, das vitrines do passado, emolduradas em mogno e, atualizados, vidros temperados de quatro milímetros. Serão crianças a apreciar também e melhor não facilitar.

- As crianças podem quebrar senhor prefeito, afirmou.

- E quem é a senhorita?

- Sou da limpeza, o senhor me contratou.

- Eu contratei?

- Sim, para trabalhar na estação. Muito obrigada senhor prefeito. Ele olhou de lado para o cunhado.

Tinha a condição total que não se lembra, não sabe se houve concurso público ou o que venha a ser para funcionário dito assim também. Mas disfarçou, com ela limpando a mão para cumprimentá-lo, em outro pano, seco. Ele agradeceu novamente.

- Obrigado.

- Eu que agradeço senhor prefeito. O diretor, secretário de obras não pestanejou, até para repetir o que viu e a cumprimentou também. E o Simões rindo.

- E aquela porta?

- Bom, lá nem para as autoridades hoje. Amanhã, na inauguração o senhor vai ficar sabendo. Saiu de lá um funcionário, carregando alguns trastes e um cilindro de arsênio ou acetileno, sabe-se lá. E fechou a porta, antes que pudessem ver alguma coisa.

- Valdemar, por favor. Ele foi se achegando.

- Sim, Simões.

- Deixa-me apresentar o senhor prefeito. Esse senhor, apontando, é o responsável pela restauração da Maria Fumaça.

- Como vai, tudo bem, apertando a mão deles. E das... parou quando o Simões fez sinal para não continuar.

- E das?

- Nada, não, eu acho que vou ser inconveniente. Simões estão indo com o pessoal. E o da pintura?

- Já estão no pátio. O pessoal do transporte já chegou. Os dois olhando de um para o outro, com aquela cara de – eles estão falando algo que não estou sabendo, com certeza e o cunhado concordando – apalermados e sem saber do que se tratava.

- Pois bem, até amanhã de tarde estará tudo pronto, arrastando o trambolho.

Mais dois saíram da mesma sala, rindo e falando alguma coisa e passaram diretos. Funcionários e com as mesmas características do dito Valdemar.

- Quem é ele não se furtou de perguntar.

- A turma da Maria Fumaça, rindo. Eles que restauraram a bichinha.

- A bichinha. Uma máquina desse tamanho. E vai ficar de mostra. Está linda realmente, volteando e vendo os detalhes, quase com medo de tocar. Quando estavam assim, escutaram o barulho e o Simões em cima dela. E mais dois segundos e o apito se fez ouvir.

- Como conseguiu? Não precisa de fornalha e vapor?

- Sim, eletrônico. Copiamos de outras iguais..., - pelo país, remendou. Sou mesmo um linguarudo, pensou, vou acabar me delatando.

- De outras. Podemos subir?

- Com certeza. Depois a limpeza tira o excesso.

- De que, excesso de que?

- Tem que estar limpa para a inauguração, senhor prefeito.

O prefeito entendeu, subiu, viu o botão, escondido que dava o sinal e apertou também.

O Simões pensou - duas crianças grandes -. Mas tem razão, foi uma surpresa e tanto. Concordo plenamente. Sorriu.

- Esta bem feliz Simões?

- Se não sabem, fiz parte do projeto e boa parte dele também.

- Fez parte do projeto e boa parte dele também, não entendi. Você entendeu, para o cunhado.

- Quis dizer que fiz parte, fiz o projeto e também pus a mão na massa, como se diz. O meu avô foi ferroviário e tive sempre excelentes lembranças dele. E agora, vamos por aqui. Rapazes, cumprimentando e eles devolveram a saudação.

Ela também, vendo os três saírem, não sem antes tentarem fazer o percurso para a sala, considerado secreta até esse momento. Não foi mesmo possível, porque o Simões abriu novamente a porta pelo qual entraram. E dali, no amplo pátio de espera das locomotivas, venda de passagens e ainda sem os bancos, viram uma turma grande, no pátio maior, entrando nas duas peruas e puxando as tranqueiras que não viram bem o que era.

- Aonde vão?

- Uma solicitação especial, senhor prefeito. De uma candidata a vereança.

- Quem? E o espanto que fez com o olhar, levantar de sobrancelhas e o gesto de ombros, para trás e para frente, conseguiu tirar, dessa vez, não pode conter, um riso maior do Simões.

- Uma senhora chamada Lucinha, professora.

- Ela? Candidata? Como ficou sabendo se nem eu mesmo sei, cutucando e, bem pensado, um safanão no cunhado. Ele gemeu baixinho.

- Foi o que me pediram. De uma das escolas municipais.

- Eu sei as escolas, engenheiro. Qual delas?

- Não vão para a escola, levantando o braço esquerdo cumprimentando e eles indo embora, passando pelo portão, aberto e fechado rapidamente. E a turma dos – o que é que está acontecendo – desocupados, ou simplesmente aposentados e a garotada tentando ver. Os dois funcionários, motorista e segurança do mesmo jeito. Tudo criança, com certeza.

- Não vai para a escola, nenhuma delas. E a professora Lucinha, eu sei quem é, candidata a vereança. Só pode ser pela oposição.

- Deve ser sim, foi tal de Zizinho, Zibimba ou coisa que o valha que veio apresentá-la tentando entrar. Não conseguiu. Só os senhores. E já avisei que somente amanhã, na inauguração. Ou reinauguração.

- E onde foram afinal, podemos saber?

- Sim, não é segredo. Vão para a praça das crianças arrumarem os aparelhos. Estão enferrujados e serão refeitos, acertados, lixados e pintados. Eles terminam amanhã, com certeza.

- E por que toda essa preocupação, falou um pouco desconsolado.

- Para o prefeito ser agraciado, não é assim?

- Eu, em minha homenagem? Por que sou sempre o último, a saber!

- Mas tem a informação na sua secretaria, com a dona Ofélia. Estive lá, o senhor não estava e o seu cunhado também. Não lhe falou nada?

- Vamos embora, vamos, obrigado doutor Simões.

Ele riu, foi até tratado por doutor. Esses dois são mesmo atrapalhados.

Chegaram esbaforido e direto na mesa dela.

- Vai babar em cima de mim, senhor prefeito.

- Deixa de ser engraçadinha. O que é isso de vereadora, candidata pela oposição e o meu maior adversário político apresentando.

- O que tem demais, só o senhor que ser o dono da verdade na cidade, levantando por fim a cabeça e os encarando.

- Você vai perder o seu cargo, ameaçou.

- É mesmo, quando?

- Deixe de ser impertinente. Pode voltar a ser auxiliar administrativo, sua megera.

- Olha aqui, levantando-se, não pode me tratar desse jeito. Está, você dois, ficam brincando, não olham as suas pastas, está feito duas baratas tontas atrás da informação da estação. E não lêem e não sabem das coisas. Quer abrir a porta, por favor, entrar em seu escritório, ou gabinete e ler o que lhe deixei lá já fazem quatro dias! Não me retornou nada até agora! Gostou papudo!

Ela sorriu orgulhosa e mesmo afrontando. Se estiver certa, assim se dirigia aos chefes. Uma desbocada. Ele olhou para o cunhado, abriu a porta, empurrando o coitado do secretário e fez em segundos os dez metros, quase, que o separavam de sua mesa, quase batendo em uma pequena, de centro, forte para quebrar qualquer canela. Abriu as duas pastas antes mesmo de chegar e sentar. Vários ofícios, nada importantes, porcarias de compras de alimentos para a creche, para as escolas, têm bastante prazo. E sim, ali está.

- Cacete, gritou. E você, gritou novamente para ele, e a senhora não me avisa?

- Se ficasse na prefeitura um minuto sequer, poderia sim senhor prefeito, da porta e séria. Precisa vir e ficar um minuto que seja. Está sempre com os seus cabos eleitorais e a sua cruz para cima e para baixo dessa cidade.

- Quer parar, Ofélia não é cruz coisa nenhuma, sorrindo. Ou sou começando a rir. Sou mesmo, é verdade. Ele é a minha também!

- Querem parar vocês dois, o assunto é sério. Essa mulher, agora na oposição me arrumou milhares de votos.

- Exagerado. Milhares de votos. Não são vinte e três mil. Quanto muito até dois mil no máximo.

- E vai se eleger com eles, com certeza. E para ele. Viu, não disse. Multiplica por dois ou três. No caso dele, seis mil votos no bolso dele e mais uma vereadora para me encher o saco. Vou perder, caindo na cadeira, desconsolado. Os dois riram que provocou maior irritação.

- Prefeito, por favor, sou eu, ela falou de longe. O senhor ganhou com setenta e cinco por cento dos votos. Setenta e cinco por cento. Se ele conseguir mais dez por cento ainda será o vencedor, deixa de escândalo. E está fazendo uma boa administração, meio maluca, mas está.

- Sou maluco agora?

- Quando grita comigo, sim. Quando fala com a sua cruz e anda com ela também. Quando não fica na prefeitura para atender aos mais pobres, chegando perto e abrindo a outra pasta, mais ainda, afirmou, batendo com o dedo indicador sobre ela. E a verba existe, então é só assinar. Mais batidos. Fica mais de dez dias para me retornar. As moções dos vereadores então, rindo, atendem mais as minhas do que as suas.

- Quer parar, já percebi e sei que é bem poderosa. O que tem debaixo da sua manga.

- Frutas, rindo. Até logo. Assine tudo, por favor. Depois conversamos. E foi saindo, eles acompanhando, ela se virou, pegou as duas abas da porta e foi fechando e sorrindo. Não acreditaram e sim, caras de palerma. Os dois. Só que a cruz rindo e cara de palerma. Ele, uma única.

*o*

A garotada acompanhou o parquinho, dois policiais da cidade tomando conta para não se aproximarem e uma turma de dezesseis pessoas, eles já sabem contar, cheio de aparelhos mexendo, tirando parte e consertando, fazendo barulho alto com as lixadeiras no metal, deixando a todos arrepiados. E a professora Lucinha no meio deles. Lição de vida, fora da classe. Afinal, amanhã vai ser a inauguração da estação ferroviária e essa solicitação foi atendida prontamente. Até estranhou a dona Ofélia.

- Lucinha, como conseguiu?

- Nem sei, não cheguei a falar com o prefeito e nem com o cunhado dele. Não estavam. Fui lá duas vezes para agradecer e nada.

- Campanha eleitoral. Estiveram no meu bairro, na associação. Falaram com o meu marido, sabe, está aposentado e é diretor administrativo. Não sei do que, rindo, ele não sabe administrar nem o tamanho da barriga, as fazendo rir e ela acompanhar também.

E as marocas se fartando com as brincadeiras, as crianças correndo de um lado para o outro e o parque infantil, por enquanto, proibida a sua entrada. E a turma trabalhando duro. O caminhão de cimento, pedra e areia chegou e eles tiveram que apartar do local. E os gritos de cuidado crianças de um lado para o outro, tirando delas o direito de continuarem falando bem, ou na maior parte do tempo, mal dos maridos. Ou simplesmente deles e suas idiossincrasias. Afinal, são homens, dizem sempre.

- Lucinha, vão acabar até amanhã?

- Foi promessa da dona Ofélia. Que mulher, manda e desmanda.

- É isso mesmo, precisa sempre uma de nós lá. Crianças, o grito e a Lucinha colocou a mão nos dois ouvidos.

- Não precisa gritar em cima de mim, por favor, já estou surda, rindo nervosa. Quem autorizou todas elas? Eu falei só quem foi premiada.

- E eles ficam! Quem consegue? Desculpe pelo grito, colocando as duas mãos na boca, em concha, se afastando e gritando as crianças novamente.

E o agito, ela tirando a mão e tentando segurar duas que passaram pela direita e mais três pela esquerda. Só tenho duas mãos, que pena. Professora devia nascer com garras, milhar delas, podendo acionar na medida da necessidade. E serem fortes também. O caminhão descarregou, buzinou, a molecada foi correndo atrás e gritando pelo seu Benedito, o motorista. Todos conhecem o seu Benedito e seu caminhão. Dois da prefeitura. Para outros serviços, tudo contratado. Quando não faz esse trabalho, está dando uma força no recolhimento do lixo. Eles terminaram a primeira parte, uma generosa mão de base para evitar ferrugem e a pintura será dada amanhã de manhã. A molecada cumprimentou a todos e já invadiram depois que confirmaram o tempo necessário para a solda voltar na temperatura normal. E a gritaria se fez. As mães foram chegando e as professoras saindo. Trocando o semblante, de felizes para preocupadas, agradecendo assim mesmo. E a Lucinha foi uma das primeiras.

- Tia Lucinha, escutou. Ela se virou. As duas premiadas. Não sabem ainda o que vão ganhar e estão assim, perguntando de quinze em quinze segundos. Ou até menos e também dividindo entre elas a possibilidade. Chefes de grupos. Autoras das cartas premiadas. Estão orgulhosas. E os amigos também. Afinal, ajudaram e tiveram o seu mérito.

- Digam. O que querem?

- A senhora já sabe o que vamos ganhar? E o que vai ser na estação? Ela conseguiu arrumar o parquinho, mas vai ser mesmo uma fábrica de brinquedos?

- Isso não sei dizer, é surpresa. Amanhã a gente fica sabendo.

- E a tia Lourdes vai mesmo fazer almoço para todo mundo? Posso convidar todo mundo mesmo?

- Não foi o que o senhor Zimbinha falou?

- Foi, mas a gente sempre acha que não é. O meu pai fala que os políticos só mentem, é verdade? Ela riu. O que responder agora?

- É às vezes é verdade sim. Mas o Zimbinha não iria fazer isso com as crianças. Ele já está com o dinheiro, já falou para a dona Lourdes que recebeu uma parte. Então, é verdade verdadeira.

E esqueceu-se de colocar as mãos nos ouvidos. O grito que as duas fizeram, reconhecendo que a tia Lucinha não mente, foi estridente. E piorou com as outras crianças chegando, sabendo que era mesmo aquilo que foi prometido. Bem, já estou saindo, vendo a alegria daquela petizada simples, de posse da maior festa da região. E duas premiadas. Uma graça. Quando conseguiu se afastar, ainda abraçando algumas mais mimosas e beijinhos de até amanhã, sorriu, protegida de volta nas orelhas. E as lágrimas rolaram escondidas no máximo e tiradas constantes de seus olhos. Voltou-se para a praça. O que será que deu nele para fazer tudo isso. Ela sabe, mas ainda não acreditou. E sou candidata a vereadora. Apoio de quem sabe que é. Totalmente. Estou eleita, confirmou para si, se depender de todos aqueles que dizem que vai ser sim. Eleita. Ótimo. A escola agradece. Mesmo sendo pela oposição.

*o*

- Pare Leônidas. O motorista até se assustou. Estacione. O que está acontecendo de novo nessa cidade?

Ele saiu do carro, atravessou a praça e o segurança atrás. Quando quer esse cara anda bem apressado.

- Bom dia, senhor Prefeito, falou o Benedito.

- O que está fazendo?

- O senhor padre vai emprestar os bancos da igreja para a inauguração da estação ferroviária.

- E quem autorizou o senhor fazer isso, com o nosso caminhão. Ele ficou esperando, não respondeu. – Sim, entendi a dona Ofélia. Você obedece mais a ela do que a mim? Ele continuou esperando, sem responder. – Ela está a mais tempo na prefeitura, não é isso. Vai me responder ou o que?

- Posso continuar senhor prefeito? Eu não posso perder o meu emprego, tenho cinco filhos, ganho pouco e o senhor ainda fica reclamando. O senhor viu que horas são?

- Por isso mesmo, sete horas e seis minutos, olhando o relógio. E já está aqui. Desde que horas, olhando, tirando uma lona de uma parte. E os três coroinhas, mais um ajudante da prefeitura puxando mais dois bancos, fazendo força. São pesados, até para evitar cair durante a missa. E ouviu o bom dia senhor prefeito de todos eles. – Bom dia, respondeu a cada um.

- Seis horas da manhã, senhor prefeito. Horas extras. Duas. A dona Ofélia mandou.

Olhou de um para outro, pensou bem, hoje é dia de inauguração, não dormi bem e a minha mulher disse que o discurso é muito longo. Realmente não sei mais o que fazer da minha vida. E a cruz vai chegar logo. Parece que dorme comigo em vez da irmã. Bem ranzinza, voltou e o segurança também. Por detrás dele já foi avisando o estado de espírito para o motorista, que se apressou em entrar no veículo, ligar e esperar. Foi entrar escutar bater as duas portas e sair. Não esperou mais do que isso, direto na prefeitura. E a saída dele foi do mesmo jeito, sem esperar abrir a porta, que manda fazer quando está com o espírito de porco, ou com a soberba em alta. No seu gabinete, nesse horário, com o discurso, lendo e relendo. Não dá para cortar nada. Tenho aqui toda a minha administração, três anos. Está certo. Números e mais números, infindáveis – grande exagero – de realizações e mais algumas laudas de consideração para com as autoridades, governo e seu representante. Nada do governador, mas cidade pequena como a dele, se dá por satisfeito com algum representante. Pode ser até o secretário para assuntos que não interessam ou sequer existam. Para resolver, claro. Assunto sempre tem línguas de fora de frutificar a vida dele. Com mangas, melões, abacaxis e todas as frutas que se despedacem na sua cara. Tomate também é fruta. Ovos não, por favor, eles não. Cozidos ainda bem, mas no original, não mereço. Escutou a dona Ofélia chegar, bater a bolsa na mesa e dar adeus para ele da porta.

- Há essa hora, o que foi?

- Sou trabalhadora. Foi atrapalhar as mesas e cadeiras do padre agora, provocou.

- Não enche.

- Quer ajuda no discurso?

- A fofoqueira já ligou para você também?

- Vou cortar todos os números, senhor prefeito, tenha dó da garotada, não merecem.

- Merecem sim, na hora da merenda...

- Pode parar, pode parar, vai falar bobagens. Pode dar as folhas que já leu, sentando-se na frente e puxando, quando ele tentou segurar. Vou ler e cortar. E não quero ouvir os blás que costuma fazer e reclamar.

- Está muito senhora de si.

- Sempre me completei. Quer que chame a minha irmã?

- Não, chega, ela não, por favor, já basta uma. Ela riu mais ainda.

- Ainda tem medo dela?

- Claro que sim, professora chata.

- Eu vou falar para ela, fique sabendo. Vou falar.

- Quanto ano de idade está a tia Emerenciana, falou mais calmo.

- Setenta e oito. Minha mãe, falou sorrindo e começando a ficar mais ainda, emocionada. Minha mãe.

- Quer me fazer chorar, é isso. Setenta e oito? Que professora chata, meu santinho de muitos paus ocos.

- Virou prefeito, não foi?

- Por meus méritos.

Eles acabaram rindo. Parecem marido e mulher e a esposa já lhe disse também. Fica mais na prefeitura do que comigo, sempre a mesma reclamação. E só reconsidera por causa do irmão, que reclama como é maltratado por ele todos os dias. Ninguém merece.

- Mais folhas, dá logo, devolvendo as que já leu.

- Cortou tudo!

- Não senhor só cortou os números. Falar sobre obras, quantos milhões, o que vai fazer com eles, outras obras, projetos do futuro, mais números e números. Faça-me o favor, o que está nos beneficiando essa maravilha vai acabar desistindo e mandando quebrar tudo de novo. Nada disso. Olha isso, até o pedido de corpo de bombeiros para a cidade! Quem se interessa? Pedido de corpo de bombeiros, lendo, e cinco milhões de reais para a compra de equipamentos. Cinco milhões de reais? Não acha que pediu demais?

- É para as outras cidades também, fique sabendo. E se pede um milhão eles nos dão cem mil, entendeu agora?

- Então está superfaturando, falou grossa. É isso, não é?

Ele olhou firme, ela começou a rir e pronto, de volta a boa vontade.

- Está bem, pode cortar. Já entendi. Nada de números. Sobraram duas laudas, três. Não vai dar nem cinco minutos.

- Cante a ópera que gosta, já que quer mais tempo, falou grossa novamente. Levantou-se e foi saindo. Não me olhe, por favor, vou reclamar.

- Está gorda, isso sim. Ela olhou para trás.

- Emagreci dois quilos, não quis ver. Quer agora? Ele colocou as mãos na cabeça e ela pensou que fosse consigo. Quando viu a cruz entrando, não conseguiu segurar a gargalhada.

- O que foi Ofélia, o que fiz agora. Ou melhor, qual a piada?

- Há essa hora, o que foi a esposa não deixa mais dormir?

- E você?

- Estou trabalhando. Cortei todos os números, afirmou.

E os dois, na frente dele, seguraram cada um às duas mãos, delas para cima três vezes, fechando e abrindo os olhos. E um final em seguida, o amem saiu bem alto. E nova gargalhada.

- Palhaços. E saia daqui, cruz. Vá rezar. Carregar bancos. Estão precisando de ajuda.

Ela o segurou no braço, arrastou para fora e fechou a porta. Ele ouviu muito bem a nova gargalhada e sorriu. Riu mais alto, quando os sinais vermelhos de anotação dela para outras palavras que deveria usar. É mesmo uma peste. Não mereço. Não mereço. Rindo.

 

*o*

- A que horas vamos chegar Marcelo, estou preocupado.

- Pode deixar doutor Horácio, estamos no horário. A inauguração será às dez horas, atrasando um pouco, onze. O almoço está programado para as treze horas. Se o prefeito não falar muito.

- Eu também espero. Que gente para citar números e mais números. Ele sorriu.

- Entendi doutor Horácio. No meu somente o valor do investimento. Acho até que não devemos citar o valor, somente a obra. Estou orgulhoso.

- E para quem mais está levando todo esse orgulho. Quem é a que quer conquistar?

- Bem, doutor Horácio, o senhor adorou o projeto.

- Quanto a isso, não tenho a menor dúvida. Ainda bem que o dono do local gostou da divisão de parte do seu patrimônio. Será um grande investimento no condomínio. Uma estrada passando perto dele. E os executivos podendo ir trabalhar na Maria Fumaça.

- Não doutor, a Maria Fumaça é só para turismo, fim de semana. Duas. O trem moderno está lá também, só para chamar a atenção dos investidores e compradores. Está uma maravilha. Vermelha e branca. O senhor vai gostar.

- Como sabe?

- Recebi as fotos.

- Onde estão?

- Segredo, é surpresa para o senhor também. Prometeu que iria aguardar.

- Esse peito vai estourar isso sim. Então, querida, está feliz?

- Muito, estou. Posso comprar uma casa também?

- O que quiser amor. O que quiser. E você, vai também?

- Se ela me quiser o amor, tentou copiar. É isso, doutor, se ela me quiser de volta, vai adquirir uma também. Mais simples, mas vou adorar morar no condomínio.

- Muito bem. Assim prova que tem razão e acredita realmente no projeto. Muito bom. É realmente muito inteligente Marcelo. Gosto de você e do seu modo de trabalhar. Tem futuro.

- Obrigado, doutor. Dona Lavínia, obrigado também.

Ela simplesmente dispensou mais agrados. Não por soberba ou displicência, simplesmente não gosta muito dele e do seu jeito. Não precisa fazer dessa maneira. Basta a sua inteligência. É assim que pensa e é assim que age. Com um exagero no recato em lidar com ele.

- Então, doutor, procurando fugir do constrangimento, mais uma hora e chegamos. Quer parar, dona Lavínia, por favor.

- Não, estou bem. Podemos ir direto, obrigada.

E nada mais. Ele parou de tentar agradar. O doutor Horácio apertou levemente a mão da esposa. Como se dizendo, é quase um filho para mim, competente e tudo o mais. Mas se não gosta dele, paciência. Pelo menos não lhe é desagradável, só assim, um pouco desinteressada do que tem para falar. Até para manter a distância que gosta de lidar com os seus empregados. Da casa. E os dele também. Do escritório de engenharia do qual é o principal sócio.

*o*

Ele bateu na porta e entrou. Escutou o grito da irmã, saindo e voltando rapidamente para o banheiro, término de banho.

- Porra, Júlio, nem aqui na minha casa. Onde está a Vânia e as crianças.

- O que você quer com eles?

- Eu estou perguntando o que você está fazendo aqui e não com eles, é essa a pergunta. Vai me colocar as cuecas também?

- Já está vestido. Está bonito, prefeito.

- Valéria, me acuda do seu irmão.

- Júlio, vá embora, preciso me vestir. Estou atrasada, gritou.

- Grande coisa. Venha, arrume lá fora, puxando o prefeito. Ele foi e gritou para a esposa que saíram. Viu o que tem lá?

- Lá onde, Júlio, cruz da minha vida. Não faz nada sem vir me falar?

- Está cheio de cartazes, a garotada está toda vestida de amarelo verde e vermelho, maior destaque. Com bandeirinhas e bonés. Uma verdadeira festa.

- E não é para ser festa, idiota.

- Não me trate assim, estou querendo ajudar. Tudo com nome de tal condomínio de não sei o que.

- O que!? Condomínio não sabe o que? É isso que está dizendo. Que merda, além de burro é distraído.

- De quem você está falando? Ele ficou observando, o prefeito não falando nada e olhando para ele. – Comigo, eu sou burro e distraído? Que merda, prefeito, assim não dá. Eu quero ajudar e você fica me destratando. Assim não dá.

Ele o empurrou para a outra sala, sem que fizesse força e voltou para o quarto, a mulher gritou de novo, viu que era ele se acalmou e bateu a porta com força.

- Esse seu irmão, a dona Ofélia tem toda a razão. É uma cruz, não é parente.

- O que é isso agora de cruz.

- Não sabe ainda? A Ofélia não contou nada? Que danada que é. É seu irmão, poderia se ofender e o emprego dela estar no fim. Ou volta a auxiliar, continuou falando. - Cruz querida, cunhado não é parente é cruz que se carrega.

A mulher, já de roupa de baixo, se ajustando e olhando no espelho, estragou a maquiagem porque começou a rir e não parava. Ele se divertindo até esqueceu a incapacidade do cunhado em se resolver e as pendências. E a tal festa. Já são nove e meia da manhã e estamos atrasados. Já deveria estar no local para esperar o doutor Horácio e equipe. Festa, sim, bandeirolas, crianças vestidas de amarelo e... bem, não me lembro das cores.

- Vamos, querida, estamos atrasados. Quer parar de rir, já estragou a maquiagem.

- Vocês dois são igual a dupla gordo e magro, só fazem o pessoal rir. Depois você reclama.

- Eu gordo, não sou gordo não senhora.

- Está bem, querido, vamos, estamos atrasados, secando por vez e passando um pouco de pó compacto, um mínimo, pelo calor pode borrar.

O vestido, leve, por cima, ajustou no busto e pronta. Ela é eficiente. Fora do padrão de que mulher demora a se vestir. Ali, naquele espaço, justamente ao contrário. O gordinho é que faz às vezes de estar sempre longe da hora marcada. Para depois. Ao sair do quarto deram de cara com ele.

- Pronto, posso continuar, beijando a irmã que voltou a rir. Já sei, contou para ela não foi. Foi?

- Foi querido, foi. Que dupla. Está tudo bem com as crianças?

- Está lá, ela também. Deixei e vim falar. Está tudo fora do que planejamos.

- É mesmo apavorado?

- Estou dizendo, acompanhando, saindo pela porta principal e dando adeus à empregada, que vai também, está toda arrumada. Fecha a casa e pode ir, foi a ordem. Eles saíram agoniados agora pelo agoniado do cunhado. Que foi no seu carro, arrancando, como se isso propiciasse a eles irem mais rápido também. E quando viram todo aquele aparato, já o sol querendo fazer estragos na arrumação da garotada e mulherada, os grandes guarda-sóis, da mesma cor deles, o fechamento da fita de inauguração, não propiciou ir com o veículo até mais perto. Desceram. Imediatamente o pessoal, bem arrumado, mesma cor, com um emblema que não viu qual era corretamente, mas uma Maria Fumaça tinha a certeza absoluta – quem fez tudo isso afinal – estava dando o colorido extra para o evento.

- Viu, chegando esbaforido. Não quis acreditar.

- E iria adiantar alguma coisa. Estive aqui e não havia nada disso. E o que é aquele galpão no fundo?

- Pois é, veja quantos seguranças. Vai lá vê se consegue. Não é autoridade?

Ameaçou um soco no destratado e avançou. Esqueceu a mulher, ela já sabe, viu os dois seguindo e a cunhada se aproximando. Rindo.

- O que foi, está rindo?

- Soube da cruz, hoje somente. A Ofélia não presta. Começaram a rir e viram os dois seguindo para tomar providências.

- Doutor Simões, como vai?

- Passou a fita, prefeito. Hoje só depois do corte. Não pode entrar, segurando levemente no peito.

- O que tem lá atrás, precisa saber. O meu discurso vai ter que nomear e constar o que foi feito.

- Está em outro discurso, prefeito. Ele já deve estar chegando. Confirmei pelo celular.

- O doutor Horácio?

- Sim, ele e a equipe. A esposa também e mais uma autoridade.

- Autoridade, maior do que eu?

- Sim.

- Algum senador, deputado federal, estadual, vereador conhecido nas outras cidades, foi enumerando as possibilidades e ele dizendo e fazendo não com a cabeça. Algum...

- O governador, falou a cruz.

- Sim? O governador? Não acredito! Não providenciei nada! Dona Ofélia, ela está sabendo?

- Claro que sim, prefeito, ela sabe de tudo, não é mesmo? E era para ser isso mesmo, uma surpresa para o senhor. Ele tem interesse na comunidade, muitos votos. Ano de eleição.

- E eu não sei. Mas aqui, cidade pequena?

- Região grande. E esse investimento vai trazer muitas mais pessoas, fique sabendo.

- Esse, de arrumar a nossa estação ferroviária? E essa criançada toda, com bandeirolas e os guarda-sóis, quem providenciou?

- Eles, o meu patrão e o investidor. Bem, deixa tomar providências, quase dez horas. Se atrasar, no máximo, quinze minutos. Devem estar chegando.

Eles ouviram a potente buzina do enorme e preta limusine, mais dois veículos atrás e um último, com bandeirinhas do governo do estado. Então é isso, perdi.

- Vamos, cruz da minha vida, vamos recepcionar. Fique longe de mim, por favor.

- É para ajudar ou ficar longe de você. Sou diretor... secretário de obras, fique sabendo.

- Grande coisa, provocou. Voltou, pela cintura, tremendo com a mulher sorrindo. – O que foi querida?

- Nada, fique calmo, não deve se aborrecer. Fica muito bruto e sem educação, sorrindo. Pronto, calma agora. Nem parece um político proeminente, afiançou.

- Só você para me acalmar. Não posso mandar matar o seu irmão, perguntou sorrindo.

- Pode, depois somente. Depois. Calma agora.

Eles desceram do veículo. Ela passou o lenço para ele enxugar a mão. Sabe como fica nesses instantes. O único momento que não é o homem que ela ama. Fica criança, mais do que já é e todos conhecem. Apertos de mão, como vão, olá, tudo bem.

- Senhor governador, quanta honra. Doutor Horácio, como vai. Marcelo, tudo bem, meu filho, e os carinhos extras de beijos e abraços. A turma querendo chegar e os seguranças fazendo o papel que lhes cabe. – Senhor, vamos, acompanhando e indicando ao mesmo tempo para perto da fita. E viu, fique calmo, o duplo de acintosos adversários políticos.

- Senhoras e senhores - já com o microfone na mão - quero ter a honra de poder homenagear a presença ilustre do senhor governador do estado, - esperou um pouco pela salva de palmas, ele é bem querido até, pelo menos na região – do doutor Horácio, investidor e o grande colaborador para a finalização dessa maravilhosa obra de reconstrução da estação ferroviária de nossa cidade.

Disse com firmeza, afinal o Marcelo é filho da terra. E o orgulho estava estampado em sua face, olhando com discreta afirmação para a professora Lucinha.

- E também a presença do nosso mais votado vereador José Augusto Zumbi, o popular Zimbinha.

Mais aplausos, agora para os dois e alguma apoteose.

- Calma, falou para ele segurando mais forte em sua mão. Calma querido, vai chegar a sua vez.

- E, para que possamos dar o maior crédito e devido, o nosso popular, querido e bem humorado – isso foi provocação – prefeito doutor Alencar dos Santos Júnior.

Uma verdadeira alegoria de gritos, aplausos. Ele largou dela, agora refeito do susto e da apreensão e levantou os dois braços, feliz da vida. Ainda bem, é para mim também a glória. Fez a volta de cento e oitenta graus e voltou à segurança da mão da patroa, sorrindo. As orelhas desapareceram para as costas, porque o sorriso tomou conta de todo o espaço.

- Viu, não falei. Agora o discurso só de agradecimento, nada de números.

- Sim, querida, sim, sim, confirma. Sem números. E aguardaram o final.

- E, para cortar a fita, por favor, professora Lucinha, senhor governador e senhor prefeito. Uma união perfeita para o nosso empreendimento. Desculpem, para a nossa contribuição para essa generosa e convidativa cidade, da qual parti e volto para, com carinho, de todo o coração, saber que participei dessa maravilhosa iniciativa do escritório para o qual tenho a honra de compartilhar com o doutor Horácio. - Por favor.

A enorme tesoura, com a professora Lucinha comandando, afinal são cavalheiros, fotos e mais fotos, o senhor governador, sorrindo, participando de toda aquela alegoria festiva e ele, do lado direito dela, com verdadeiro orgulho. Afinal, sempre foi sua amiga e cabo eleitoral das mais ativas. Deve a ela, no mínimo dois mil votos e mais alguns de seus amigos. Representa quase dez por cento do eleitorado. E agora na oposição. Mas sorria, satisfeito. As fotos vão ficar ótimas!

A turma toda foi invadindo, depois que as crianças balançaram mais vezes as bandeirolas, gritaram vivas e o espaço foi aberto para a visitação. Eles encaminharam a todos para os bancos.

- E esses outros, de onde são, ele pediu a ajuda para o cruz.

- Não sei, vou perguntar para a dona Ofélia, já volto.

Acompanharam as autoridades presentes para o púlpito, antes da sala, no saguão de recepção de passageiros. O afobado voltou e informou.

- São de duas igrejas evangélicas, rindo.

- De quem?

- O Benedito conhece. Faz parte de uma delas. Participação total, prefeito. Não sabe não, o senhor visitou.

- Estou ficando e achando que vou ser reeleito mesmo, falou orgulhoso. Esse pessoal nunca me pediu nada. O padre não, toda hora enchendo o saco.

- Querem parar vocês dois. Fique atento. Júlio, não se aproxime mais de nós, está ouvindo? Não deixo mais você entrar em casa. Deixe o meu marido em paz.

- Está vendo, não me tem respeito e sou o diretor... secretário de obras. Nem a minha irmã me respeita.

- É que não é hora, Júlio. Deixe esses detalhes para depois, quase implorando.

- Está bem, está bem, indo de encontro à mulher. Pela quantidade de cadeiras e a mesa, agora, hora chata dos discursos ele não participaria, com certeza. E tinha razão. Todos acomodados.

- Senhoras, senhores, a principal dupla que propiciou esse encanto de encontro.

Quando todos pensavam que seria algum deles a falar, as duas, Francisquinha à frente, vieram e ficaram no meio do improvisado palco, um metro de altura. As duas estavam chorando, coitadinhas e não conseguiam ler.

- Vamos esperar, é muita emoção. Elas foram as premiadas no concurso de redação. E são as autoras das melhorias e da indicação no que deveríamos fazer nesse espaço. Uma fábrica de brinquedos.

Ela segurou as mãozinhas no rosto e desabou coitadinha. A amiga chorava junto e as duas não iriam dar conta do recado. Uniformizadas com o amarelo, branco e vermelho do investimento no condomínio, distante dois quilômetros da cidade, nas terras, ele viu agora, do maior proprietário da região. E não lhe disseram nada. Sorriu levemente.

- Sou o prefeito, ninguém me conta nada. Estive com ele pedindo apoio e disse que iria viajar. Que pilantra!

- Olha só o que disse, vai ficar estúpido. Sorria e aceite, Alencar, por favor.

- Sim, querida. Sem números, sorrir, aceitar e dizer amém para a oposição. Pouco é, é bem pouco. É sim, bem pouco!

Ela olhou para o seu rosto e só não vai rir mais forte para não lhe deixar mais nervoso. E a diretora, dona Lucinha, junto às crianças, amparando.

- Desculpem, mas as nossas anfitriãs estão muito emocionadas, e, se me permitem, vou ler as suas redações. E o fez, com as duas agarradas, cada uma de um lado, chorando, secando aos poucos as lágrimas. E voltou toda ela quando foram ovacionadas. As crianças gritando, pulando nos bancos e sorrindo. Agora sim, quando lhes gritaram os nomes, elas voltaram a sorrir.

- Obrigada, falou ela e a amiga, puxando o microfone, um misto de choro e alegria. Obrigada, meus amiguinhos, voltando a chorar.

Que coisa, muita emoção mesmo para duas crianças. As outras, pura diversão. Os adultos, bem, a maioria disfarçou com lenços, olhar para cima, fingir que estavam rindo e o governador e seus assistentes se viu na mesma condição. Autoridade não chora, fica somente emocionado. Foi o que se viu. Comentários a mais, com certeza, foi exagero da oposição.

- O governador, foi o som dizendo com o Marcelo sorrindo e apontando. Assim, bem displicente.

- Como vão crianças, senhoras e senhores, autoridades presentes, é uma grande honra participar dessa iniciativa privada. Um grande investimento na restauração da nossa estação ferroviária, a volta à linha entre três cidades e a conseqüente ajuda para aliviar o trânsito da região. Como todos sabem – não, ninguém sabe, inclusive eu, pensou – o fator principal será a renovação dos trilhos, com as verbas já liberadas. E a manutenção dela será explorada, a partir dessa cidade, para toda a região, do qual tenho o maior carinho. Não vou me alongar, só reconfirmar, com a minha presença, a pujança do investimento, desejar para a região o progresso merecido e congratular aos senhores presentes, para as senhoras maravilhosas e as crianças, fruto de todo o nosso esforço para o futuro. Parabéns, crianças, pela fábrica. Eu também quero ganhar um presente. E terminou.

Ele não acreditou. O pessoal ficou tudo abobado? E as minhas três laudas, o que faço com elas?

- E agora, querida?

- Nada de números, querido. A Ofélia tinha razão. Se vai falar, diga sobre as crianças, pronto. Ele se aprumou.

- O senhor prefeito da nossa cidade, anunciou o Marcelo.

E os aplausos fortes novamente, as crianças em clima de delírio e parecia que tudo estava indo muito bem.

- Senhores, senhoras, crianças. Autoridades e proeminentes, falou um pouco acintoso. É o fator principal da minha administração, as crianças. Com a colaboração dessa prestimosa professora, Lucinha... – precisou esperar, porque agora sim, tem razão, campanha eleitoral – você merece, professora... enquanto a gritaria com o nome dela, a turma toda de pé e agora, bem quem se acabou nas lágrimas foi ela. As duas pequenas, chorando também, apertando as suas pernas e a cintura. Uma choradeira completa. Esperou mais um pouco. - Continuando, nada que se pode fazer a mais do que foi feito. Surpresa para todos nós, com as presenças ilustres, essas duas adoráveis criaturinhas e suas redações, por sinal mais coerente que muitos adultos – ela sabia, tem que ser indelicado em algum momento, fique calmo querido, rezou – e que irão contribuir com o futuro de uma maneira inteligente e ativa. Senhor governador, autoridades, senhor Marcelo e senhor Augusto, fazendo menção a ele, o seu apoiador. E o para o nosso popular Zimbinha, meus respeitos também. Ufa. Conseguiu. Obrigado a todos os presentes e sintam-se em casa, donos dessa propriedade, para usar, cuidar, convidar amigos à conhecer e finalmente, comprar os brinquedos dessa maravilhosa fábrica. Obrigado. Todos aplaudiram. Ele sentou-se.

- Você é um grande mentiroso, querido. Não conhece a fábrica.

- Mas sei dar os meus nós, apertando a mão dela. O que poderia dizer? Todo o discurso foi por água abaixo. Virou festa infantil essa inauguração.

- Pois é, não é mesmo?

- Estava sabendo de alguma coisa, querida?

- Não, não me venha trazer problemas para dentro de casa. Fique atento. Agora só a inauguração.

- Senhores e senhoras, anunciou o Marcelo. Vamos visitar, comandou.

Todos se levantaram. Que coisa maravilhosa. Talvez pelo calor, pelo horário, já são dez horas e quarenta e três minutos, pela sempre urgência do governador, estar em muitos lugares ao mesmo tempo, agenda cheia. O assunto discurso foi bem rápido.

As portas do salão e da Maria Fumaça foi aberto. Duas delas, uma à esquerda e outra à direita. Entrada e saída. Bem, hoje, pelo volume de gente, fiquem à vontade. Não precisam ler as placas. E assim foi. Todo o trabalho de restauração, a possibilidade de entrar, apitar foi a festa que poucos gostariam de ver. Porque as crianças não se contêm. Já imaginaram todos eles tocando? Então, não pode. Os primeiros conseguiram e o restante reclamou. Fica para uma próxima. Ao governador foram sendo mostradas todas as peças de uma estação ferroviária, construção dos trilhos, fotos do primórdio da cidade, os cidadãos eméritos e até foto de todos os prefeitos. Incluindo.

- Viu, fiquei o mais bonito.

Ela sorriu e não respondeu. Ele acompanhando, aos poucos de lado, na frente, atrás dos doutores e investidores. Havia muitas pessoas que não conhecia e pareciam ser de outras cidades. Achou interessante e preocupante, como sempre. Desconfiado da sombra, nessa época de eleição. E muitos deles conversando com a oposição. Zimbinha e professora Lucinha. Estou de olho, bem aberto.

- Quer parar, vai me esmagar a mão, Alencar.

- Desculpe. Onde está o Júlio?

- Nada disso, fique longe dele. A porta vai abrir.

Ele se interessou. E outro susto e surpresa. Duas outras locomotivas.

- Senhores, essas duas serviram as peças originais que estavam faltando para a que está e vai ficar em exposição. Elas, em contrapartida, reformadas em mais condição para o dia a dia, todas as características externas como podem ver, acrescentando a eletricidade como propulsora. Por favor, pediu.

O engenheiro Simões fez questão de fazer suspense, entrou na cabine de comando e ligou algum botão, porque o som que fez de resfolegar de uma saída de vapor e o vermelho no compartimento que seria a fornalha. Tudo eletrônico. Só para eles verem.

- Como podem ver, elas duas servirão para as pessoas se locomoverem durante as voltas turísticas na região, abrangendo mais três cidades e pontos de parada. Outras duas estações serão reformadas com o valor das viagens. A essa estação indicando para o chão, uma associação sem fins lucrativos foi criada pelo doutor Horácio e com uma verba inicial de um milhão de reais. Todos se admiraram e vibraram nas palmas.

- Agora entendi. Não gastaram dois milhões e duzentos mil reais. Menos um.

- Sem números, Alencar, por favor.

- Sim, bem, sim querida.

- E podemos continuar afirmou o Marcelo, fazendo um novo sinal.

O Simões já de fora da locomotiva um e dois, ali presente e mais um painel. Agora sim, foi um deslumbre total até para o patrão. Que ficou estático olhando a maravilha de uma enorme máquina de puxar vagões. Vermelha em sua maioria, com faixas brancas, com o bico para frente em formato de um besouro. Enorme, elétrica e de muita potência, com certeza. Totalmente reformada.

- Ela será utilizada, outra virá em seguida de acordo com a necessidade, para transportar os moradores do condomínio que será implementado pela nossa empresa de engenharia e adquirido parte das terras, apontando o proprietário delas.

- Todos combinados, pelo visto, foi o murmúrio dele e ela apertando a sua mão.

- Vamos caminhar mais um pouco. E está aberta a visitação a partir de amanhã somente, evitando com isso que as crianças avançassem. Acabou o mistério e uma nova salva de palmas se fez ouvir. O enorme salão ficou pequeno para tanta curiosidade. Ele foi se afastando junto com as autoridades e os principais. Não se furtou. Aflito.

- Marcelo, Marcelo, jovem, como vai meu filho.

- Doutor Alencar, não vou poder atender ao senhor. Preciso acompanhar o doutor Horácio.

- Não vão participar do almoço?

- Sim, volto em seguida. Somente acompanhar o governador. Não quer vir junto?

- Sim, com certeza. Vamos querida. Ele levantou o braço chamando a cruz da sua vida. Pode querida, deixa, não vou falar nada, quando o Marcelo já foi saindo depois que se despediu dela também.

Ele chegou mais do que rápido.

- Vamos acompanhar. Sem falar! Tudo bem? Indicando o pessoal à frente. As duas riram e eles consentiram fazendo o mesmo. Precisa calar a boca um instante. Até para as coisas acontecerem da melhor maneira.

O governador agradeceu a gentileza, novas trocas de mesuras e salamaleques entre correligionários políticos, mais e mais promessas de campanha e as devidas possibilidades da região e suas necessidades. Finalmente, automóvel e fora da presença deles.

- Então, Alencar, tudo bem?

- Vocês realmente me deixaram preocupado. Posso saber quem fez tudo isso?

- Doutor Horácio e companhia, indicando.

- E você Marcelo?

- O que tem prefeito?

- Também é candidato a alguma coisa?

- Sim, com certeza!

- Pela oposição? Também você pela oposição? Não acredito!

- Não me deixou falar, prefeito. Sou candidato a um coração, somente. E voltar para a cidade. Depois do almoço vai ficar sabendo de todos os detalhes, eu prometo. Agora, com licença, por favor.

E se dirigiu diretamente para ela. A professora Lucinha. Eles sorriram e se afastaram. Crianças escutavam a todo o momento. Elas sabem que são não gritem e não chamem a atenção. Hoje a festa é delas. Adultos!

- Oi, tudo bem?

- Tudo, e você. Está rindo do que?

- O prefeito preocupado com a oposição. Vai sair mesmo para vereadora?

- Vou sim.

- Tem espaço para um suplente?

- Engraçado, estava pensando nisso agora mesmo. Quem é o candidato?

Ele pôs a mão no peito, ela sorriu. Todos os conhecem e o tempo que ele levou para conquistá-la. Agora de volta, poucas visitas nos meses de trabalho na capital. Mas as crianças têm toda a certeza que ela está e vai ficar feliz com a volta dele. Estão de mãos dadas e sorrindo. E os pegaram aos beijos mais do que carinhosos, atrás da locomotiva. E avisaram a todos com gritos também. Uma festa infantil. Uma inauguração maravilhosa. E um projeto dinâmico para a região.

 

*o*

- Então, prefeito, o que achou? O almoço estava delicioso, afirmou com eles todos em volta, na prefeitura e esperando as perguntas pertinentes.

- Querem saber, falem com a dona Ofélia.

- Vou chamar a minha irmã, prefeito. Ela vai vir conversar com o senhor.

- Não ligo, estou bem, não é querida?

- Está ótimo, amor. E feliz. Está eleito.

- Como sabe?

- O meu coração assim o diz. Aqui sempre será eleito. Ele sorriu, todos riram da sua aflição. Sempre querendo saber sobre os votos. Até do cruz, rindo dele.

- E você, vai perder o emprego, não enche não.

- Prefeito Alencar, o maior do mundo.

- Puxa saco!

- Prefeito Alencar, vence a todos.

- Puxa saco!

- Prefeito Alencar, a cruz dos coitados e oprimidos. Ele ameaçou correr atrás do desafeto que foi saindo, rindo. – E prefeito, nessa eleição eu vou sair para vereador pela oposição. Ele rugiu e todos riram.

- Palhaço. Secretário.

- Diretor, gritou, antes de sair pela entrada principal acompanhado da esposa. Todos riram, incluindo a ela puxando por ele.

- Vamos embora, chega por hoje. Dona Ofélia, guarde o projeto.

- Vai ler antes das eleições, prefeito?

- Por que pergunta?

- Porque só faz de cinco em cinco dias no seu gabinete, arreliou. Ele sentiu a mão e a pequena pressão nela pela esposa. Sorriu.

- Não, dessa vez não, megera. Estou bem acompanhado. Um beijão na tia Emerenciana.

- Medroso, escutou antes de sair. Estava acompanhado pelo casal Marcelo e Lucinha. Ótima companhia. E foi jogar conversa fora com eles no bar do Zimbinha. É mesmo um grande cara de pau. E sem números, o que é melhor.

 

Um breve final por enquanto, da estória. Não das conseqüências políticas.



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Qui, 18 de Fevereiro de 2010

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Última atualização em Sáb, 20 de Fevereiro de 2010 11:14
 
Comentários (2)
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Parabéns Cilas! Gosto da sua narrativa, pois ela nos prende do início ao fim. Todas as estrelas. Um abraço.
  • Abreu
    avatar
    A parede virou número. E acabei relendo...
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