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Famílias Pontanas Enviar por e-mail
Livros - Trechos de Livros
Escrito por: Samanta
Samanta

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Qua, 24 de Fevereiro de 2010 13:18


O clã Hernández dispunha-se da mesma forma que as outras quinze famílias que compunham o vulgo da cidade. Em Ponta dos Veados erguiam-se e dissipavam-se todos as ramas dos Gil de Ciroga, dos Quiroga, dos Vidal Holgin, dos Orosco, os Lusero, os Rosmaninho, os Touro, os Barroso, os Dias Varroso, os Garin de Aspeytia, os Ygostigui, os Balenzuela, Echeverria, Sosa, Oliva, e cada qual tinha total conhecimento da posição que lhe correspondia nos assentos áridos da capela.

Os Fernández, que faziam parte na sua maioria, de personalidades do governo do município gozavam dos lugares mais cômodos para assistir à aula do Senhor. Invariavelmente Carmela Fernández sentava-se depois que o fizesse seu marido Jaime e seus cunhados Felipe, Marcelo e Jorge, que entravam triunfais durante a missa já começada, só para que o resto dos presentes pudessem observar o apogeu do seus atavios recém engomados. Não todas as células dos Fernández gozavam da exposição pública, os três filhos de Jaime projetavam em si mesmos à perfeição, a gama de comportamentos que podia se esperar de uma estirpe como esta. O filho menor, Francisco, era um menino daqueles que desfrutam de gritar quando uma situação não os convence, tática que era imitada pelo seu pai nas reuniões municipais durante as sessões legislativas. Francisco chegava a imitar, sem querer, a gritaria dos índios quando invadiam a praça iniciado um levantamento.

Em cada ocasião em que o frade se propunha iniciar o ritual da comunhão, o menino ativava as membranas de suas cordas vogais e gritava tudo o que não tinha gritado durante o início da missa. A sua inconformidade era que achava que aquilo -a santa comunhão- que consumiam todos menos ele, era uma bainha doce de algarobeira e, como Fernando não lhe “convidava”, suas birras de crianças explodiam. Mais radicais seriam suas presunções quando atingiu os cinco anos e ante a explicação de que a hóstia não era uma gulodice mas sim o corpo do mesmo Senhor, seu pranto fora acrescentado ao supor que todos os que engoliam a carne humana do “bom homem” iriam, sem mais remédio, pro mesmíssimo inferno.

Se bem em categoria de idade a mais velha era sua irmã Ramona, que para o momento da chegada de Fernando tinha nove anos, intelectualmente era Hugo quem se comportava como o filho do meio e ainda com seus dezesseis anos desfrutava de sentar-se no colo da mãe para presenciar a missa e Ramona não podia evitar sentir vergonha com aquela cena. Não lhe importava que Hugo não soubesse mais nada útil do que catar lenha e carregar palha de um curral para outro, na verdade, não lhe importava que não soubesse ler a constelação do Cruzeiro do Sul, ou ver a manjedoura e a Virgem na lua, nem diferenciar as estações do ano ou se negasse a beber leite pela suposição de as vacas eram touros e seus urbes, pênis… mas, Tenha a santa paciência!!! Vê-lo sentar-se no colo da mãe em público? Quem podia suportar? Era suicídio social, para ele e para ela que tinha que agüentar os olhares dos seus colegas.

Ramona costumava pensar, para se conformar, que Hugo era a mascote da família; que continuaria grudado na mãe ainda quando ela namorara ou casara e que cuidaria dos filhos de Francisco depois que aquele se unisse com alguma princesa índia. Ou, talvez só seguisse os condenados passos do pai e acabasse como funcionário do município para resolver quem se encarregaria de acender as luminárias da praça, decisão que por enquanto tomavam Jaime e Felipe, Jorge e Marcelo Fernández, Pepe e Raul Montebuey quem eram os que desfrutavam das tarefas menos exigidas dentro do ministério de justiça, embora exibissem denominações honoríficas que correspondiam a semelhantes responsabilidades: prefeito, capitão, alferes real, tenente, aguazil maior, regedor de vizinhos, mestre de campo, etc.

Habitualmente se encontravam com problemas maiores como identificar conflitos entre habitantes e tinham que dar-lhes a prioridade devida para ser tratados no município onde, se bem as metodologias resultavam ineficientes, já que coincidir no ordenamento do mais importante e aquilo de menor importância era penosamente utópico, havia que discernir entre as necessidades dos que precisavam recuperar terras cedidas aos índios ou trabalhadores e camponeses que demandavam ferramentas para lavrar essas terras. Da mesma forma era em extremo complexo estabelecer esquemas efetivos para os preços das mercadorias em troca, e assim evitar litígios entre o padeiro, o ferreiro, o sapateiro, segundo fosse, maior ou menor, a oferta e a procura de cada semana ou mês.

 



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Qua, 24 de Fevereiro de 2010

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Última atualização em Sex, 26 de Fevereiro de 2010 10:12
 
Comentários (2)
  • rackel
    avatar
    Hegemonias familiares, ritos seculares, pequenas hipocrisias... O extrato acima é instigante. Gostei.
  • Abreu
    avatar
    Feudal...
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