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La Vie en Rose Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Drama
Escrito por: victortedeschi
victortedeschi

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Qui, 04 de Março de 2010 11:46

Já passava das três horas da manhã e a luz do abajur ainda estava acesa. Era um pequeno feixe de luz que só era capaz de iluminar a escrivaninha e deixar o restante do cômodo em penumbra, que visse de fora conseguiria notar o feixe amarelado na janela mas só andavam nas ruas de madrugada as garotas de programa, pessoas saindo de bares e baladas e alguns marginais, ninguém que se importasse com um sonâmbulo. Com nenhum raio de sol fazendo menção de aparecer, fato que só ocorreria lá pelas sete da manhã, a noite permanecia gelada; pequenos flocos de neve cooperavam para uma temperatura congelante, além do vento que assoprava a neve irregularmente.

Do pequeno apartamento Marcel observava os flocos em uma dança hipnotizante, talvez fosse a pouca luz que dava a um simples movimento dado pelo vento o aspecto místico e até certo ponto fantasmagórico. A sala era o primeiro recinto depois do minúsculo corredor da porta de entrada, em frente à janela havia uma escrivaninha de madeira, atolada de papéis amassados em quase toda sua superfície, além é claro do abajur velho. Além da escrivaninha, fazia parte da sala uma mesa redonda e baixa, da mesma madeira da escrivaninha, ao invés de papel amassado estava atolada de garrafas de vodca, vazias em sua maioria. À esquerda da sala havia um segundo corredor, não muito maior do que o da entrada, ligando a sala à um quarto e um banheiro. O quarto deveria ser o maior cômodo do apartamento, havia uma cama de mola com um edredom manchado de bebida, um armário modesto com gavetas embutidas e uma televisão de catorze polegadas. O banheiro provavelmente não é o mais limpo e agradável que um ser humano já viu, mas não se compara àqueles de postos de gasolina de beira de estrada; o piso era de azulejo inicialmente branco, mas agora estava mais para um cinza claro, as paredes eram preenchidas por azulejos amarelos cafonas, havia uma pia, um espelho de parede trincado na borda, um assento sanitário e um box de cortina. Com exceção do banheiro, todos os outros recintos eram forrados por um carpete preto e as paredes forradas por um papel de parede verde escuro que, principalmente nos corredores, se via descolado e desbotado.

Bem de longe, Marcel conseguia ver o contorno luminoso da Torre Eiffel, apesar da neve cair com maior força. Estava perdido em pensamentos, segurando um copo com vodca pela metade, alguns cubos de gelo parcialmente fundidos e uma rodela de limão perdida no fundo do copo. A vodca era uma boa maneira de esquentar seu corpo uma vez que o sistema de aquecimento daquele prédio era precário, talvez a última vez que sofrera manutenção foi em 1945, isso porque o sistema de aquecimento era supostamente mais novo que o prédio em si. Marcel não era muito alto, era magro e muito branco; encolhido na cadeira para ajudar a se esquentar parecia frágil, mas de pé demonstrava certo respeito graças aos ombros largos e o rosto sério, com seus olhos verdes expressivos e o semblante de um homem de trinta anos que era. A barba rala em seu rosto, mal feita e pedindo para ser aparada faz algumas semanas, dava um ar mais desleixado e preguiçoso à Marcel. O cabelo liso e comprido até seus ombros tinham certo brilho oleoso, ainda mais pela ligeira escapada de banhos recentes.

O homem fechava seu casaco bege de lã para, inutilmente, tentar se esquentar mais do conseguiria com sua vodca. A noite despertava-lhe mais prazer do que o dia pois sabia que quando o sol raiasse seria o começo de um novo dia cheio de desgraça: iria pare seu emprego em um jornal praticamente falido, receberia bronca do chefe imbecil pela falta de matérias interessantes, olharia o saldo do banco e não se surpreenderia ao ver alguns poucos milhares de euros em vermelho, iria sempre para o Caffé pedir sempre o mesmo café com biscoitos, encarar a bela garçonete e saber que é fracassado e covarde demais para convida-la para sair, iria entrar na internet no computador do Caffé pois era falido demais para ter um só para si, voltaria para seu apartamento caindo aos pedaços e finalmente ficaria sentado em sua escrivaninha, após escrever inúmeras vezes matérias vazias, para depois beber de sua vodca e contemplar a noite fria de inverno, sabendo que a melhor parte de tudo isso é que o dia seguinte seria simplesmente a mesma coisa.

Uma olhada rápida pelos inúmeros papeis, nada mais que um monte de lixo escrito naquela folha de celulose; matérias supérfluas, nenhum conteúdo, sensacionalismo barato. Não fizera anos de faculdade de jornalismo para aquilo, no começo da carreira até poderia aceitar isso, afinal, era jovem e inexperiente, à procura de qualquer matéria. Marcel se levanta devagar e coloca o copo em cima de uma das folhas, para não estragar a mesa já estragada com incontáveis marcas de copo. Um longo suspiro desolado e um olhar perdido para a janela era tudo que conseguiu fazer naquele espaço de tempo antes de fechar os botões do casaco e checar se a carteira continuava em seu bolso; ia dar uma saída para respirar ar fresco daquela madrugada antes de ter que aturar mais um dia infernal. Fechava a porta do apartamento com um grande estalo, pegava as escadas pois morava no terceiro andar e preferia descer rapidamente a ter que esperar o elevador velho chegar ao seu andar, fechar as portas enferrujadas e temer que o mesmo caísse. O vento batia graciosamente contra seu rosto, espalhando flocos de neve na barba; como era de madrugada não havia nenhum ruído se não o do próprio uivo do vento. Nada de milhares de buzinas, nada de obras, nada de gente falando, nada de ambulâncias e viaturas, nada que pudesse desviar Marcel de seus pensamentos, um único caminho racional, a oportunidade que tinha de repensar em toda sua vida e perceber que tomou a curva errada e agora se via em uma estrada esburacada, sem futuro promissor. Haveria um retorno a ser seguido?

Dez quadras a esquerda do velho apartamento de Marcel e mais uma virada na esquina no decimo quarteirão, havia um bar para adultos Le Vie em Rose. Abandonando a vodca do conforto de seu lar, Marcel dava lugar para uma garrafa de cerveja barata, sentado em uma poltrona de couro preto, um tanto gasta, em frente à um palco onde uma garota fazia seu ''show exótico''. O barulho não o deixava pensar direito. Era muita gritaria, assovios, a música eletrônica estava assustadoramente alta, as garotas nas mesas individuais deixavam os homens loucos, como cães no cio. Marcel nunca entendera a lógica em um bar de ''strip tease''. Pagar por uma mulher que não poderia tocar, só olhar. Onde está o prazer nisso? Ganha-se muito mais prazer baixando um filme adulto barato na internet. Marcel não estava ali pela dança falsamente prazerosa. Estava ali justamente para parar de pensar um pouco, não que não gostasse, mas quando a corrente de pensamentos de seu emprego fracassado, de sua vida nada elegante e vontades suicidas lhe atingia o cérebro, era hora de desviar a cabeça e que melhor forma de desviar a atenção do que com uma música ensurdecedora e bêbados gritando por mulheres? Uma balada teria o mesmo feito mas era cara demais para a pouca verba que Marcel tinha, fora que se estivesse em uma balada seria a única pessoa a não dançar, a não conversar, apenas bebendo. Um bar de ''strip tease'' era mais acolhedor para um homem que só queria parar de pensar.

O show não era de todo tão ruim, a mulher que dançava era bonita, não era estonteantemente linda, mas tinha sua beleza; era também bem flexível, alguns movimentos chegavam até à impressionar. Marcel bebia sem muita pressa, para que? Para ter que voltar para seu apartamento e pensar novamente? Ir dormir? A pior hora é quando se deita a cabeça no travesseiro, quando todas as ideias e pensamentos insistem em vir a tona e não deixa-lo dormir, como um jogo doente em que só sairia vencedor se tomasse mais de seus comprimidos. Olhando a bela garota dançando lembrava-o um pouco da garçonete do Caffè. Tinham a mesma cor de cabelo, um castanho escuro, quase preto. A garçonete era ligeiramente mais magra no entanto seu corpo era menos definido. O rosto não lembrava em nada; a garota tinha traços um tanto grosseiros, um nariz desproporcional ao resto da face enquanto que a garçonete possuía um nariz pequeno, mais linear e proporcional a seu rosto; seus olhos eram castanhos claros ao invés dos verdes da dançarina exótica. Quando ia ter coragem de falar com ela? Manter uma conversa que durasse mais que um simples pedido por café forte e alguns biscoitos. O plano original que o levara ao bar estava fracassando, estava pensando demais em como era covarde, não era este o intuito daquela visita. Marcel se levanta e termina com a cerveja antes de se dirigir ao bar e pagar o que devia. A dançarina não levou nenhum centavo em sua calcinha.

O vento estava mais forte, a neve já não dançava com ele, era jorrada contra tudo o que poderia encontrar. Alguns poucos carros estacionados já estavam com o capô totalmente coberto em branco, as calçadas estavam fofas e escorregadias e o corpo de Marcel era castigado pelo vento frontal, dando arrepios constantes. Não ia voltar para casa, não ainda, o nível alcoólico ainda estava baixo demais para querer dormir. Andar pelas ruas parecia uma opção razoável, afinal, que perigo haveria? Que tipo de bandido desesperado ficaria a espreita numa noite fria como aquela? Marcel colocava as duas mãos no bolso, teria que se lembrar de comprar algumas luvas novas quando as lojas estivessem abertas. A medida que se distanciava do bar, os ruídos da música cessavam, não dava para escutar nada alem do uivar constante do vento que era como música para seus ouvidos. Ao virar a esquina, se deparava com uma garota de programa com um sobretudo negro, apenas. Coitada, passando a noite fria em busca de alguem que pagasse por um sexo sem paixão ou amor, puramente instintivo. Não bastasse então ficar congelando na rua, teria que se esquentar com o corpo de um animal. Era uma perspectiva interessante aos olhos de Marcel que andava pela rua paralela ao da ''profissional do sexo'', não sem antes ouvi-la perguntar se a desejava. A desejava? Não era feia, um pouco mal cuidada mas que moral ele mesmo teria? Passara uma semana sem banho por causa do chuveiro gelado, não fizera a barba e se tirasse o óleo do cabelo poderia fritar algumas batatas. Se rebaixaria a ponto de querer um sexo instintivo? Ela merecia isso dele? Fazia um certo tempo que não fazia sexo e de fato isso fazia falta. A prostituta não teve que se preocupar com Marcel pois ele não tinha nenhum dinheiro na carteira, o instinto teria que esperar mais algumas semanas ate que recebesse seu salario patético que se converteria em pagar parte de dívidas que nunca acabavam, comida, água, luz, bebidas e remédios e se sobrasse algo, o que aconteceria logo depois que porcos voassem, Marcel poderia se dar ao luxo de virar mais um animal em procura de sexo.

Só voltou para casa quando seu relógio mostrava cinco horas. Teria que se levantar as seis. Não arriscaria dormir agora, se deitasse, dificilmente acordaria e por mais odioso que fosse seu dia, era a única forma de ganhar dinheiro. Se sua vida parecia sem rumo com pouco dinheiro, o que seria então sem nenhum. Jogava as chaves na mesinha de centro, logo depois de trancar a porta, e ia ao banheiro. Seu espelho não mentia quanto sua aparência, não estava em sua melhor forma física. Olhava para a gilete de lâmina semi sega na pia, esperando que um dia fosse novamente usada, mas não seria agora. Marcel apenas da uma passada de água no rosto na tentativa frustrada de amenizar as olheiras e logo vai para seu quarto. Não trocaria de roupa, a que estava usando ainda não parecia feder, economizaria com a lavanderia assim. A cama parecia que ia puxando seu corpo para ela, uma força invisível e inconsciente de atração. Não poderia dormir, não acordaria a tempo. Sua cabeça foi amortecida pelo travesseiro surrado e suas pálpebras foram se fechando.



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Qui, 04 de Março de 2010

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Última atualização em Qui, 04 de Março de 2010 17:48
 
Comentários (7)
  • Cilas_Medi
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    Uma desilusão total. Uma narrativa coerente mas totalmente depressiva e cansativa, parecendo copiar o estado de ânimo, ou nenhum, dele. Parabéns!
  • JCostaJr
    avatar
    Texto com riqueza de detalhes. E agradável de se ler. Parabéns.
  • Abreu
    avatar
    Vida triste essa do Marcel, sem qualquer perspectiva. E por mais que na frança, bem sujinho ele, não? Um título paradoxal...
  • LucasMelo
    avatar
    Um texto muito bom de ser lido, pode-se imaginar perfeitamente as cenas que é descrito,como um video em sua mente. Muito bom mesmo :D 5 estrelas sem dúvida.
  • Giuli
    Muito bom.
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Gostei. Parabéns e estrelas.
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