Ferramentas
Procurar
Login

Autores.com.br

publique, seja lido e comente

Você esta aqui: Início
Segunda, 06 Set 2010
Escrito por: rackel
rackel

(19 votos, média de 4.68 em 5) "Caso queira votar neste texto, clique de uma a cinco estrelas"

Pena é um sentimento dispensável

Enviar por e-mail

Alguém passa à frente de um lar de idosos numa manhã de outono. Alguns conversam, mas a maioria está calada, olhar distante, como se fitasse o infinito. Esta aparente desconexão com o mundo leva quem passa a dizer "coitados!". A cena se repete com frequência e alguns dos internos já não querem mais tomar o banho de sol ali na frente. Uns pouco escutam, outros não enxergam direito e muitos cuja dificuldade é a locomoção, preservam os sentidos em dia e são os que se aos poucos se recolhem ao fundo do pátio. "Coitado, uma ova", revelam-nos depois. "Eu estou muito bem aqui. Não preciso da pena de ninguém". Velhos todos seremos e mais dia menos dia alguma função do corpo, vital ou não irá se degenerar, mas isso não é motivo para se fazer de vítima. O papel de vítima é confortável, embora como tudo na vida tenhamos que pagar um preço por ele. É louvável o arroubo de dignidade em não se prestar a tal papel.

As dificuldades físicas são um prato cheio para a acomodação. É a desculpa perfeita para justificar o desejo que os outros tenham peninha de nós. Qualquer um reage diante do sentimento de pena. Não gostamos de nos sentir um traste inservível. O resgate da dignidade se impõe ante a simples menção de que estamos sendo incapazes de resolver sozinhos alguma situação ou tomar determinadas atitudes. Queremos igualdade na restrição. Ainda que tolhidos por doença, idade, dificuldade de enfrentamento das situações, não abrimos mão do direito de escolha quando nos convém mostrar-nos excluídos.

A auto-exclusão é uma resposta àquela que o meio nos impõe por estarmos fora do padrão, um recurso que usamos quando alguém quer que façamos algo por ele mas que para realizá-lo precisamos lançar mão de algum sacrifício. Esta demanda de força extra torna o ato não-natural, deixando de ser espontâneo aquilo que fazemos com algum dano físico ou emocional a nós. É claro que nada se faz seja em proveito próprio ou de terceiros que não vá gerar uma carga de vontade ou de trabalho e em consequência, esforço. Mas gastar nossa reserva de energia ou contrariar nossa vontade em prol de outros, quando até para nós mesmos iríamos pensar duas vezes antes de se empenhar, já é demais.

Por mais que se tente o altruismo, sempre se cobra algo em troca seja em que "moeda" for. Assim, faz parte do treino para o NÃO, evitar auto impingir-nos posturas que fomos "convencidos" a adotar. É até perdoável promover a auto-exclusão em benefício próprio, baseado em uma dificuldade real de atender a determinados pedidos. Difícil é caracterizar a limitação das pessoas. Ou ela é ostensiva ou seu portador é um coitadinho e não se pode esperar nada.

Não é difícil perceber quando alguém está se esforçando para fazer o "seu" melhor e não custa valorizar sem apelar para a piedade o trabalho de quem faz o "seu" máximo. Não é sacrifício algum respeitar o direito de calar-se ou de não ser incomodado.

Se queremos de verdade ajudar este público que primeiro entendamos o seu mundo, visitá-los sem impor nossa presença, sem gerar expectativas que não possamos cumprir, para a partir daí interagir e colaborar de igual para igual. Limitação não é sinônimo de pena e de solidão. Quer ajudar? Seja voluntário. Use a sensibilidade para descobrir como fazê-lo e ao encontrar o caminho, seja constante. O primeiro ímpeto é fácil mas as pessoas se afeiçoam a nós. Abandonar porque cansamos ou perdemos a graça, nem pensar. Todos nós temos os nossos defeitinhos de fábrica e ninguém está no padrão. O processo de inclusão e exclusão que nos é impingido é diuturno. É fácil exercitar. Experimente.



Crie um banner deste artigo em outros sites


Para criar um banner deste artigo em outro site,
copie e cole o texto abaixo em sua página.




Visualizar :

Pena é um sentimento dispensável
Sex, 21 de Maio de 2010

© 2010 - Autores.com.br


Comentários (42)
  • Abreu
    avatar
    Todo o problema está justamente na insensibilidade alheia. Muitas pessoas só vão se inteirar da necessidade do respeito ao próximo quando estiverem sentindo na pele.
  • rackel
    avatar
    Só sentindo na pele mesmo, Abreu, para ter consciência do respeito ao próximo. Obrigada pela visita e comentário.
  • Catucha  - olá
    avatar
    Excelente sua crônica Rackel. Muito boa para refletir.Bjs da Cat.
  • rackel
    avatar
    Valeu, Cat! Bjs.
  • veruska
    avatar
    Pena, nem de nós mesmos.É o sentimento mais penalizante do mundo, principalmente se essa pena se direcciona para aqueles, que merecem, isso sim, a nossa admiração. Parabéns.
  • rackel
    avatar
    Esta é a palavra, Veruska. Admiração. Obrigada por enriquecer o texto com teu comentário.
  • Juarez_do_Brasil
    avatar
    Sentimento de pena é terrível, pois quem tem pena cruza os braços, quem tem compaixão vai a luta porque se põe no lugar do outro. Bela crônica Rackel.
  • rackel
    avatar
    Compaixão. Isto sim, Juarez é um sentimento diferenciado e clarificas isto muito bem. Obrigada.
  • Niki_
    avatar
    No geral, as pessoas se importam pouco ou quase nada, umas pelas outras...Gostei do texto :love:
  • rackel
    avatar
    Esta desimportância que damos ao outro nos diminui como seres humanos, infelizmente. Obrigada por contribuir com sua reflexão oportuna.
  • Ellinn
    avatar
    :love: Verdade ! Pena é dispensável . Quem quer faz , não espera acontecer. E quem tem pena se despena além de ser galinha. tenho acompanhado vários seres (com enormes dificuldades , físicas e até mental ) que lutam e conseguem seus objetivos ,melhor que muitos ( com nenhuma dificuldade) . Belissimo Texto. muitas estrelas. bjo
  • rackel
    avatar
    É isto aí. Temos que ir em frente, cada um com suas limitações, mas insistindo sempre. Obrigada, Ellin.
  • Orlando Rocha
    avatar
    Ao colocarmos o ego à frente de qualquer atitude, neutralizamos o gesto para tornar-mos mais humanos. Este egocentrismo é um dos um grandes problemas da sociedade contemporânea. Vivemos apenas para nós, apenas para o presente, na mais fechada relação hedonista. Não temos perspectivas para nada, nem para nós, nem para os outros, importando apenas o hoje e o nosso. Uma crônica a se pensar. Parabéns poetisa.
  • rackel
    avatar
    Obrigada, Orlando, pelo pensamento enriquecedor. O egocentrismo é peça chave nos entraves do viver contemporâneo. Como encontrar a medida? É um fenômeno a ser discutido, pensado, que está aí, a espera de um outro paradigma, pois o atual não facilita em nada as relações humanas nem o crescimento do homem. Obrigada pelo comentário e visita.
  • RaquelCrusoe
    avatar
    Grande reflexão querida Xará, o que aliás, não é nenhuma novidade. Parabéns e todas as estrelas. Bjs
  • rackel
    avatar
    Obrigada, Xará.
  • katiadom
    avatar
    :love: Mais um bom texto seu que nos leva a uma maior reflexão. Parabéns :love:
  • rackel
    avatar
    Obrigada, Kátia. Bjs.
  • Giba  - Pena é um Sentomento Dispensável
    avatar
    A auto-exclusão não ocorre só com as pessoas de idade em Orfanatos, Talvez lá, ela se torne mais gritante.Mas há,também, a auto-exclusão de Pais e Avós em falsa aparência familiar, onde os seus familiares os tem juntos, mas ignorando-os. O que é tão perverso quanto deixá-los em um Orfanato. Parabéns pelo tema!
  • rackel
    avatar
    Obrigada, Giba, por tua compreensão e por complementar de forma tão sensível os aspectos sutis do texto.
  • Luciene_Aguiar
    avatar
    Suas crônicas são sempre excelentes, Rackel. Essa então é maravilhosa. 5 estrelas. Abraços.
  • rackel
    avatar
    Obrigada, Luciene. Abraço fraterno.
  • Roberval
    avatar
    Ótimo texto parabéns.
  • rackel
    avatar
    Valeu, Roberval.
  • rubao
    avatar
    Meu pai sempre disse: quem tem pena é ave. A ação da inclusão deve ser de forma natural, pois a velhice faz parte do nosso cotidiano e um dia fará parte da nossa vida, assim espero. O amor às pessoas, quer sejam jovens, idosas, devem ser acometidas com respeito e liberdade, para que ambas se sintam valorizadas,e encontrem o devido espaço que lhes é proprocionado.Belo texto, abraços.
  • rackel
    avatar
    Liberdade, respeito, valores sensíveis de se lidar com eles. Obrigada por pontuar o texto de maneira gentil e inteligente com teu comentário. Abraço fraterno.
  • Anjoestelar  - Muito criativo
    avatar
    Parabéns pelo txto criativo. Bju grande.
  • rackel
    avatar
    Obrigada, Anjoestelar. Volte sempre.
  • Rosa Candida
    avatar
    Gostei muito da sua crônica, estrelei É mais fácil ajudar do que ter pena Parabéns!
  • rackel
    avatar
    Obrigada, Rosa. Abraço fraterno.
  • seth
    avatar
    Como dizia meu avô ,Deus me livre da caridade alheia...demonstrava assim a "fé" que tinha na humanidade...infelizmente somos uma espécie doente e incapaz,para suportar o peso da própria inutilidade alguns seres se consolam de suas misérias buscando encontrar pessoas que julgam estar piores que elas...sim,quem sente no coração o desejo de ajudar o próximo deve faze-lo de forma constante e respeitando sempre a dignidade humana.ser voluntário é uma excelente maneira,além de um grande aprendizado.estrelas.
  • rackel
    avatar
    Obrigada, Seth, por compartilhar este texto e enriquecê-lo com a sabedoria do teu comentário. Abraço fraterno.
  • Cerson
    avatar
    Excelente crônica, Rackel - como sempre. Ninguém é digno de pena. Aliás, o dia em que tivermos que fazer algo por obrigação, creia: tempo perdido. Se tiver vontade de doar, doe com uma das mãos, evitando que a outra veja. - Compara-se a esses programas de televisão: o empresário fulano de tal doou tanto. Porque este empresário não procurou uma entidade e fez a doação em silêncio. A maioria quer a mídia... Parabéns, querida, pelo aforismo ideal para alertar os desavisados. Abraços
  • rackel
    avatar
    É isto mesmo, Cerson. A caridade não pressupõe proganda e a doação seja do tempo ou de algo material, necessita vir acompanhada do despreendimento. Brilhante contraponto. Obrigada.
  • JCostaJr
    avatar
    Cada célula da sociedade é um mundo, cada ser humano é um mundo em si mesmo. Viver em harmonia com todas as diferenças, em seus mais diversos aspectos, talvez seja o grande desafio humano onde ainda imperam o orgulho e o egoísmo. Via de regra, Rackel, seus textos proporcionam oportunidades de reflexão. Cumpre assim, importante papel destinado ao escritor, que para muitos, eu, inclusive, se constitui um fardo: o aspecto social da Literatura. Que você, conscientemente, percebe-se, sabe valorizar.
  • rackel
    avatar
    JcostaJr. Sua deferência e gentileza para com os meus textos me encanta e me faz seguir em frente. Continue com essa sinceridade peculiar, este desejo sincero de contribuir. É o maior presente que um texto, um posicionamento de um autor pode receber. Abraço fraterno
  • LuaBauer
    Quem sabe com reflexões como essa, pessoas saem da inercia?!?!...
  • rackel
    avatar
    Obrigada, Lua, por tua compreensão e visita.
  • jackiebarra
    avatar
    Olá querida, obd pelas suas visitas e em retribuição, li seu texto e realmente quem tem que ter pena é galinha...a pena em qq sentido é um sentimento inutil que não ajuda ninguém e que somente prolonga o sofrimento daqueles vitimas da pena. Pena por pena não vale a pena...rs.BJus gdes :love:
  • rackel
    avatar
    Obrigada, Jackie, por sua visita e comentário.
  • Eliza
    avatar
    Mais uma excelente reflexão.Você sempre atenta a temas extremamente importantes. Parabéns amiga! Beijos :love: :D
  • rackel
    avatar
    Obrigada, Eliza, por tua presença amiga e comentário.
Somente usuários registrados podem comentar!

Leia Também